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A geração que sabe procurar, mas ainda sabe pensar?

Marco Alevato

Editor

Nunca tivemos tanta informação disponível. A pergunta incômoda é: estamos ficando mais cultos ou apenas mais eficientes em encontrar respostas?

Imagine uma experiência simples.

Pegue dez pessoas de idades diferentes, coloque-as em uma sala e faça algumas perguntas básicas.

Quem escreveu Dom Quixote? Em que continente fica o Egito? O que significa inflação? Quem pintou a Mona Lisa? Qual é a capital da Austrália?

Agora acrescente uma regra:

Não vale usar o celular.

Talvez seja exatamente aí que comece uma das discussões mais importantes sobre educação e cultura do nosso tempo.

Durante séculos, conhecimento significava acumular referências. História, literatura, geografia, matemática, filosofia, artes e ciências formavam aquilo que costumávamos chamar simplesmente de cultura geral.

Hoje, uma mudança silenciosa está acontecendo.

Não precisamos necessariamente saber.

Precisamos saber procurar.

E essas duas coisas não são exatamente iguais.

Do “eu sei” para o “eu sei onde encontrar”

Google, YouTube, redes sociais, Wikipédia, inteligência artificial e milhares de plataformas transformaram radicalmente nossa relação com o conhecimento.

Isso trouxe benefícios extraordinários.

Uma pessoa pode aprender programação sem frequentar uma universidade. Pode assistir a uma aula de física produzida do outro lado do planeta. Pode estudar outro idioma em casa. Pode consultar bibliotecas inteiras em segundos.

Nunca houve tamanho acesso ao conhecimento.

O paradoxo é que o acesso à informação não significa necessariamente a aquisição de conhecimento.

Existe uma diferença enorme entre encontrar uma resposta e compreender uma resposta.

Quando toda informação está disponível imediatamente, nosso cérebro pode começar a tratar conhecimento como algo externo.

Para que memorizar se posso pesquisar?

Para que aprender uma capital se o mapa está no telefone?

Para que estudar uma data histórica se posso perguntar à inteligência artificial?

Isoladamente, o argumento parece lógico.

O problema surge quando percebemos que o pensamento crítico depende justamente daquilo que já existe na nossa cabeça.

Para pensar, primeiro precisamos saber alguma coisa

É impossível analisar profundamente um assunto sem referências.

Uma pessoa que desconhece a história terá dificuldade em perceber quando um discurso político repete acontecimentos do passado.

Quem não possui conhecimentos básicos de economia terá mais dificuldade para compreender juros, inflação, dívida pública ou uma promessa eleitoral economicamente impossível.

Quem nunca teve contato com literatura perde parte das referências utilizadas diariamente na linguagem, na arte, no cinema e na própria interpretação do comportamento humano.

Conhecimento geral não serve simplesmente para vencer um jogo de perguntas e respostas.

Ele fornece matéria-prima para o pensamento.

Quanto maior nosso repertório, maior nossa capacidade de comparar, questionar, interpretar e desconfiar.

Os sinais de alerta já existem

Avaliações internacionais evidenciam dificuldades significativas na educação.

O PISA 2022 registrou uma queda excepcional no desempenho médio dos países da OCDE em matemática e leitura. Mais preocupante ainda é perceber que algumas tendências negativas já existiam antes da pandemia.

Ao mesmo tempo, pesquisas americanas apontam uma redução na leitura de livros entre adultos.

Não significa que estejamos diante de uma geração incapaz.

Muito pelo contrário.

Temos jovens capazes de dominar ferramentas tecnológicas que seus pais sequer imaginavam quando tinham a mesma idade.

A questão é diferente:

Que tipo de inteligência estamos desenvolvendo?

Estamos formando pessoas capazes de encontrar informação rapidamente ou de interpretar o que encontram?

Idealmente, precisamos das duas.

A cultura do conteúdo rápido

Existe, ainda, outro elemento nessa transformação.

A velocidade.

Durante séculos, o conhecimento exigiu paciência.

Um livro podia exigir dez ou vinte horas de concentração. Uma formação profissional levava anos. Aprender um instrumento exigia milhares de repetições.

A cultura digital introduziu outra lógica.

Vídeos de segundos.

Resumos.

Cortes.

Frases.

Notificações.

Rolagem infinita.

Tudo compete pela nossa atenção.

A consequência pode ser uma sociedade extremamente informada sobre acontecimentos momentâneos e, paradoxalmente, pouco familiarizada com acontecimentos fundamentais.

Sabemos quem está viralizando.

Mas sabemos quem foi Sócrates?

Conhecemos a última polêmica das redes.

Mas conseguimos explicar por que aconteceu a Segunda Guerra Mundial?

Reconhecemos dezenas de influenciadores.

Mas reconheceríamos uma obra de Van Gogh, Picasso ou Michelangelo?

Não se trata de demonizar as redes sociais.

Trata-se de perguntar o que estamos colocando na nossa cabeça todos os dias.

E então chegou a inteligência artificial

A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais fascinante.

Uma máquina pode escrever, traduzir, calcular, resumir, pesquisar, organizar e explicar praticamente qualquer assunto em segundos.

Isso pode produzir uma geração intelectualmente extraordinária.

Um estudante curioso dispõe hoje de ferramentas que nenhum estudante da história teve.

Mas existe também o caminho inverso.

Se terceirizarmos não apenas a busca por informação, mas também o raciocínio, poderemos criar pessoas extremamente eficientes, utilizando ferramentas, e extremamente dependentes delas.

A diferença estará na maneira como utilizaremos a tecnologia.

IA como amplificador do pensamento ou IA como substituta do pensamento.

Essa talvez seja uma das grandes decisões educacionais das próximas décadas.

O que podemos esperar das próximas gerações?

Provavelmente veremos uma transformação do conceito de inteligência.

Memorização terá menos importância isoladamente. Capacidade de interpretação, criatividade, comunicação, adaptação e pensamento crítico deverão ganhar ainda mais valor.

Mas há um perigo em abandonar completamente o conhecimento acumulado.

Porque ninguém pensa criticamente no vazio.

Precisamos de referências.

Precisamos conhecer história para discutir política.

Precisamos conhecer matemática para compreender economia.

Precisamos conhecer ciência para avaliar argumentos científicos.

Precisamos conhecer a literatura e a filosofia para entender parte da construção intelectual da nossa civilização.

E precisamos conhecer culturas diferentes para compreender um mundo cada vez mais conectado.

Talvez a educação do futuro precise encontrar exatamente esse equilíbrio:

menos decorar sem compreender e mais compreender sem abandonar o conhecimento.


TESTE FACEBRASIL: como está sua cultura geral?

Chegou a hora de fazer uma experiência.

São apenas 10 perguntas.

Nada de Google.

Nada de ChatGPT.

Nada de perguntar para Alexa ou Siri.

Pegue papel e caneta e responda antes de conferir o gabarito.

1. Qual é a capital da Austrália?

A) Sydney
B) Melbourne
C) Canberra
D) Brisbane

2. Quem escreveu Dom Quixote?

A) William Shakespeare
B) Miguel de Cervantes
C) Dante Alighieri
D) Victor Hugo

3. Em que ano terminou a Segunda Guerra Mundial?

A) 1939
B) 1942
C) 1945
D) 1948

4. Qual é o maior oceano da Terra?

A) Atlântico
B) Índico
C) Ártico
D) Pacífico

5. Quem pintou a Mona Lisa?

A) Michelangelo
B) Vincent van Gogh
C) Leonardo da Vinci
D) Pablo Picasso

6. O que é inflação?

A) A redução geral dos salários
B) O aumento generalizado dos preços ao longo do tempo
C) O aumento da população
D) A redução dos impostos

7. Qual planeta é conhecido como Planeta Vermelho?

A) Vênus
B) Júpiter
C) Marte
D) Mercúrio

8. Qual civilização construiu Machu Picchu?

A) Maia
B) Asteca
C) Romana
D) Inca

9. Qual elemento químico possui o símbolo Au?

A) Prata
B) Ouro
C) Alumínio
D) Urânio

10. Quem formulou a teoria da relatividade?

A) Isaac Newton
B) Charles Darwin
C) Albert Einstein
D) Nikola Tesla


GABARITO

1-C | 2-B | 3-C | 4-D | 5-C | 6-B | 7-C | 8-D | 9-B | 10-C

Qual foi seu resultado?

9 ou 10 acertos: Excelente repertório de conhecimentos gerais.

7 ou 8 acertos: Muito bom. Sua base cultural está bastante sólida.

5 ou 6 acertos: Atenção. Há espaço para ampliar seu repertório.

3 ou 4 acertos: Talvez seja hora de voltar aos livros, documentários, museus e boas conversas.

0 a 2 acertos: Antes de abrir o Google para conferir o gabarito, talvez seja interessante perguntar: como chegamos até aqui?

A pergunta que realmente importa

O objetivo deste teste não é constranger ninguém.

Na verdade, algumas dessas perguntas poderiam ser substituídas por outras cem.

O verdadeiro teste começa depois delas.

Pergunte a um adolescente.

Depois aos pais.

Depois aos avós.

Faça o teste no escritório, na escola ou durante um jantar em família.

Compare os resultados.

Talvez descubramos algo muito mais interessante do que quem sabe mais.

Podemos descobrir como diferentes gerações aprenderam a aprender.

O desafio para pais, professores e instituições de ensino não será impedir a tecnologia. Isso seria impossível e provavelmente indesejável.

Será ensinar as próximas gerações a utilizá-la sem entregar a ela aquilo que nos torna humanos: curiosidade, memória, repertório, dúvida, criatividade e capacidade de raciocinar.

Porque há uma diferença fundamental entre informação e conhecimento.

Informação é aquilo que conseguimos encontrar.

Conhecimento é aquilo que conseguimos compreender.

E sabedoria talvez continue sendo aquilo que nenhuma ferramenta poderá decidir completamente por nós:

O que fazer com tudo aquilo que sabemos?

Facebrasil pergunta

Faça o teste sem pesquisar e conte quantas você acertou.

Depois envie para seus filhos, amigos e colegas.

A discussão talvez seja mais importante do que a pontuação.

@marcoalevato

@facebrasil

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