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A Psicologia Financeira: por que ganhar dinheiro é diferente de saber viver com ele

Marco Alevato

Editor

Morgan Housel mostra que nossas decisões financeiras são muito menos matemáticas do que imaginamos. Para o imigrante, que frequentemente precisa reconstruir patrimônio, carreira e segurança em outro país, essa talvez seja uma das lições mais importantes.

Existe uma ideia bastante difundida sobre dinheiro: quem entende de números toma melhores decisões financeiras.

Não necessariamente.

Pessoas extremamente inteligentes quebram empresas, acumulam dívidas e fazem investimentos desastrosos. Ao mesmo tempo, pessoas sem formação em economia conseguem construir patrimônio ao longo de décadas por meio de decisões relativamente simples.

Por quê?

Essa é uma das perguntas centrais de “A Psicologia Financeira”, de Morgan Housel.

O livro parte de uma premissa poderosa: administrar dinheiro não depende apenas do que sabemos. Depende principalmente da maneira como nos comportamos.

Medo, ansiedade, ego, comparação, paciência, experiências familiares, ambição e até nossa infância participam das decisões financeiras que tomamos.

Para quem vive a experiência da imigração, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior.

Porque mudar de país não significa apenas reconstruir a vida.

Muitas vezes, isso significa reconstruir completamente nossa relação com o dinheiro.

Cada pessoa possui uma história financeira

Housel chama a atenção para algo que frequentemente esquecemos: ninguém toma decisões financeiras olhando para o mundo exatamente da mesma maneira.

Imagine dois brasileiros chegando aos Estados Unidos.

Um cresceu em uma família que enfrentou dificuldades financeiras. Para ele, dinheiro representa segurança.

Outro cresceu vendo empresários assumirem riscos e prosperarem. Para ele, dinheiro pode representar oportunidade.

Diante do mesmo investimento, os dois provavelmente tomarão decisões diferentes.

E ambos acreditarão estar sendo absolutamente racionais.

Nossa relação com dinheiro começa muito antes de abrirmos nossa primeira conta bancária.

Ela é construída pela família, pelo ambiente econômico, pelas crises que presenciamos e pelas experiências que acumulamos.

O brasileiro que viveu hiperinflação, planos econômicos, desvalorizações cambiais e instabilidade pode enxergar patrimônio de maneira diferente de alguém que cresceu nos Estados Unidos.

Nenhuma dessas experiências deve ser ignorada.

Elas fazem parte de nossa psicologia financeira.

Ganhar dinheiro e conservar dinheiro são habilidades diferentes

Talvez essa seja uma das ideias mais importantes do livro.

Ganhar dinheiro frequentemente exige iniciativa, risco, criatividade e coragem.

Conservar dinheiro exige outras características.

Paciência.

Disciplina.

Humildade.

Planejamento.

Principalmente, a capacidade de reconhecer que nem todos os riscos precisam ser assumidos.

Essa diferença aparece diariamente na vida empresarial.

Um empreendedor pode ser extraordinário ao vender, negociar e conquistar clientes, mas extremamente desorganizado ao administrar o dinheiro que entra.

Faturamento não é lucro.

Lucro não é patrimônio.

E patrimônio não significa necessariamente segurança financeira.

São coisas diferentes.

O perigo silencioso da comparação

A imigração possui uma característica particularmente interessante.

Chegamos a um país onde praticamente tudo pode parecer maior.

Casas maiores.

Carros maiores.

Empresas maiores.

Crédito disponível.

Consumo abundante.

E, atualmente, ainda existe uma gigantesca vitrine chamada rede social.

Vemos o carro do vizinho.

A viagem do conhecido.

A casa do empresário.

O restaurante frequentado pelo amigo.

Mas existe uma informação que normalmente não aparece na fotografia:

quanto aquilo custou para aquela pessoa.

Não sabemos suas dívidas.

Não conhecemos suas obrigações.

Não vemos sua conta bancária.

Não conhecemos suas preocupações.

Comparar nosso patrimônio real com a aparência financeira de outra pessoa é um jogo praticamente impossível de vencer.

Riqueza é aquilo que você não vê

Esta talvez seja uma das reflexões mais interessantes de A Psicologia Financeira.

Quando vemos alguém dirigindo um automóvel de luxo, sabemos que aquela pessoa gastou dinheiro comprando ou pagando por aquele carro.

O que não sabemos é quanto dinheiro permaneceu disponível depois daquela decisão.

Patrimônio verdadeiro frequentemente é invisível.

Está na reserva financeira.

Nos investimentos.

Na empresa saudável.

Na casa com pouca dívida.

Na capacidade de enfrentar meses difíceis.

Principalmente na liberdade de poder dizer “não”.

Isso muda completamente a definição de riqueza.

A importância da margem de segurança

Quem imigra aprende rapidamente que imprevistos existem.

Um negócio pode perder clientes.

Uma doença pode interromper temporariamente o trabalho.

Uma despesa inesperada pode aparecer.

A economia pode desacelerar.

Um equipamento pode quebrar.

Por isso, construir alguma margem financeira não significa pessimismo.

Significa sobrevivência.

Uma empresa sem reservas pode transformar um problema pequeno em uma crise.

Uma família sem margem financeira pode transformar uma despesa inesperada em dívida por anos.

Nem sempre será possível construir essa reserva rapidamente.

Mas compreender sua importância já modifica a maneira como tomamos decisões.

Tempo talvez seja o maior patrimônio

Outro conceito fundamental discutido por Housel é o poder do tempo.

Normalmente procuramos o investimento extraordinário.

A oportunidade extraordinária.

O negócio extraordinário.

Mas grandes patrimônios muitas vezes são construídos por decisões relativamente comuns, repetidas ao longo de muitos anos.

O tempo permite que pequenas escolhas se acumulem.

Isso vale para investimentos.

Vale para empresas.

E vale para a própria imigração.

O primeiro ano pode parecer difícil.

O quinto já conta outra história.

Depois de dez ou vinte anos, decisões aparentemente pequenas podem produzir consequências enormes.

Existe uma enorme diferença entre enriquecer rapidamente e construir patrimônio.

Saber quando existe o suficiente

Talvez a pergunta mais difícil sobre dinheiro seja justamente esta:

Quanto é suficiente?

Sempre haverá alguém com uma casa maior.

Uma empresa maior.

Um patrimônio maior.

Um carro melhor.

Uma viagem mais sofisticada.

Se nossa definição de sucesso depender exclusivamente da comparação, a linha de chegada continuará se movendo.

O problema não está em querer crescer.

Ambição pode ser extraordinariamente positiva.

O perigo surge quando nenhuma conquista consegue produzir satisfação, porque imediatamente precisamos da próxima.

Dinheiro deveria ampliar nossa liberdade.

Não criar uma nova prisão.

O verdadeiro luxo é controlar o próprio tempo

Uma das ideias mais poderosas associadas à obra é que dinheiro pode comprar algo muito mais importante do que objetos.

Pode comprar autonomia.

Poder escolher onde trabalhar.

Com quem trabalhar.

Quando descansar.

Quando visitar a família.

Quando dizer não para um cliente.

Quando dedicar tempo aos filhos.

Quando simplesmente parar.

Para muitos imigrantes, talvez essa seja uma definição muito mais interessante de sucesso.

Não trabalhar por quarenta anos apenas para comprar coisas.

Mas construir uma vida na qual, gradualmente, possamos recuperar o controle sobre nosso próprio tempo.

A matemática explica o dinheiro. O comportamento decide o resultado.

A Psicologia Financeira não é simplesmente um livro sobre investimentos.

É um livro sobre pessoas.

Sobre nossas inseguranças.

Nossa ambição.

Nossos medos.

Nosso ego.

Nossa paciência.

E nossas escolhas.

Para o brasileiro que decidiu construir uma vida nos Estados Unidos, talvez exista uma reflexão especialmente importante.

Viemos para cá buscando oportunidades.

Trabalhamos.

Construímos empresas.

Compramos casas.

Criamos nossos filhos.

Reconstruímos carreiras.

Prosperidade não deveria ser medida apenas pelo tamanho daquilo que conseguimos comprar.

Talvez prosperidade também seja dormir tranquilo.

Ter reservas.

Poder ajudar alguém.

Ter escolhas.

Controlar parte do próprio tempo.

E não precisar demonstrar para ninguém que vencemos.

Porque, no final das contas, talvez a maior demonstração de riqueza seja justamente aquela que ninguém consegue enxergar.


Reflexão Facebrasil

Não importa apenas quanto dinheiro passa pelas nossas mãos. Importa quanto dele conseguimos transformar em segurança, liberdade, escolhas e tranquilidade para viver.

Para pensar

Se ninguém pudesse ver sua casa, seu carro, suas roupas ou suas viagens, suas decisões financeiras continuariam sendo as mesmas?

Conte para a Facebrasil: qual foi a maior lição sobre dinheiro que a vida imigrante ensinou a você?

@marcoalevato

@facebrasil

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