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Brasil em Suspenso.

Marco Alevato

Editor

O que restará para o próximo presidente?

Em meio à radicalização política, disputas judiciais, suspeitas de corrupção e questionamentos sobre a liberdade de expressão, o país se aproxima das eleições sem saber exatamente o tamanho da herança que será entregue ao próximo governo.

O Brasil chega à fase decisiva das eleições de 2026 cercado por uma inquietação que ultrapassa a tradicional disputa entre direita e esquerda. O que está em jogo não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas também em qual país essa pessoa encontrará após as urnas serem fechadas.

A polarização política se tornou tão intensa que o debate público parece ter perdido a capacidade de distinguir adversários de inimigos. Instituições que deveriam transmitir segurança são questionadas por uma parcela expressiva da população. Decisões judiciais são interpretadas como defesa da democracia por uns e como abuso de poder por outros. Investigações que alcançam autoridades e pessoas próximas aos centros de decisão alimentam a sensação de que nenhum Poder está imune à crise de credibilidade.

Enquanto isso, milhões de brasileiros observam esse cenário tentando responder a uma pergunta bastante simples:

O que vai sobrar para o próximo presidente, seja ele quem for?

Uma eleição marcada pela desconfiança

Toda eleição brasileira carrega tensão, promessas e acusações. O processo de 2026, porém, ocorre em um ambiente especialmente deteriorado.

As redes sociais transformaram qualquer declaração em munição eleitoral. Um vídeo fora de contexto pode destruir uma reputação em poucas horas. Uma investigação, antes mesmo de produzir uma denúncia formal, pode ser apresentada como uma condenação definitiva. Ao mesmo tempo, decisões legítimas da Justiça também passam a ser automaticamente classificadas como perseguição sempre que contrariam determinado grupo político.

O resultado é uma sociedade que já não sabe em quem confiar.

O eleitor desconfia do político, do jornalista, do juiz, do influenciador, das pesquisas eleitorais e até das informações que recebe de familiares e amigos. Cada grupo passou a operar dentro da sua própria realidade, alimentado por algoritmos que confirmam convicções e escondem contradições.

A democracia depende do conflito de ideias. Mas há uma diferença profunda entre conflito democrático e guerra permanente. Quando cada lado considera que uma vitória do adversário representará o fim do país, desaparece o espaço para negociação, convivência e reconstrução.

Liberdade de expressão ou território sem regras?

A liberdade de expressão tornou-se um dos pontos mais delicados do debate brasileiro.

Há cidadãos, jornalistas, empresários e políticos que enxergam determinadas remoções de conteúdo, bloqueios de perfis e decisões judiciais como sinais de censura ou de intimidação. Por outro lado, autoridades e especialistas argumentam que a liberdade de expressão não pode servir de proteção a ameaças, fraudes, campanhas coordenadas de desinformação ou ataques contra o Estado Democrático de Direito.

O próprio Supremo Tribunal Federal modificou, em 2025, a interpretação do artigo 19 do Marco Civil da Internet, ampliando as situações em que plataformas digitais podem ser responsabilizadas por conteúdos publicados por terceiros. A decisão foi apresentada como uma forma de proteger usuários e combater conteúdos ilícitos, mas também suscitou questionamentos sobre seus efeitos na circulação de opiniões e o risco de remoções preventivas excessivas. STF

Essa discussão não pode ser reduzida a slogans.

Liberdade de expressão não significa liberdade para cometer crimes, difamar pessoas ou praticar fraudes deliberadas. Mas combater abusos também não pode significar transformar opiniões incômodas, críticas severas ou posições minoritárias em condutas proibidas.

Uma democracia saudável precisa preservar simultaneamente dois princípios: a responsabilidade de quem fala e o direito da sociedade de criticar quem exerce o poder.

Quando o cidadão passa a medir cada palavra por medo de consequências imprevisíveis, há um problema. Quando mentiras fabricadas são deliberadamente difundidas para manipular eleições, há também um problema.

O desafio brasileiro é impedir os dois extremos.

Candidaturas decididas nas urnas ou nos tribunais?

Outro ponto de tensão está na judicialização das candidaturas.

A legislação brasileira estabelece condições de elegibilidade e situações que podem impedir uma pessoa de concorrer, especialmente nos casos previstos na Lei da Ficha Limpa. A Justiça Eleitoral também pode indeferir ou cassar registros quando forem comprovadas irregularidades, abuso de poder político, abuso econômico, fraude ou descumprimento das regras eleitorais. TSE

Portanto, nem toda impugnação representa perseguição política. Existem regras e elas devem valer para todos.

O problema surge quando uma parcela significativa da sociedade deixa de confiar na imparcialidade de quem interpreta essas regras. Mesmo decisões juridicamente fundamentadas perdem legitimidade social quando são percebidas como seletivas, imprevisíveis ou influenciadas pelo clima político.

É importante fazer uma distinção: cassação, indeferimento de registro e inelegibilidade são institutos jurídicos distintos. Não devem ser usados como sinônimos, nem apresentados como condenação definitiva antes do encerramento dos processos e recursos aplicáveis.

Em uma democracia madura, candidaturas não podem estar acima da lei. Mas a lei também não pode parecer moldada conforme o nome, o partido ou a conveniência do momento.

A segurança jurídica exige regras claras, decisões coerentes e o mesmo rigor para aliados e adversários.

A crise política também é uma crise moral

Escândalos envolvendo agentes públicos, assessores, intermediários, contratos, emendas, benefícios e estruturas partidárias ajudam a aprofundar uma antiga percepção brasileira: a de que o poder público frequentemente aplica regras diferentes para quem está no topo.

Não se deve declarar culpada uma pessoa que ainda está sendo investigada. Denúncia, investigação, indiciamento e condenação são etapas distintas. A presunção de inocência precisa ser respeitada até mesmo nos casos que despertam indignação pública.

Mas também seria ingenuidade ignorar a deterioração da confiança institucional.

No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, o Brasil obteve apenas 35 pontos em uma escala de 0 a 100 e permaneceu na 107ª posição entre 182 países e territórios. A pontuação representa a segunda pior nota brasileira desde o início da série histórica comparável. O índice mede percepção, não a quantidade exata de crimes cometidos, mas revela como a integridade do setor público brasileiro é avaliada por especialistas e agentes econômicos. Transparência Internacional Brasil

A crise moral não está apenas nos eventuais desvios de dinheiro. Ela também aparece na normalização da mentira, no uso seletivo da indignação e na disposição para justificar qualquer comportamento quando esse beneficia o próprio grupo político.

O brasileiro condena a corrupção do adversário e relativiza a do aliado. Defende a liberdade de expressão para quem pensa como ele e pede censura para quem o incomoda. Exige respeito às instituições quando a decisão lhe favorece e acusa essas mesmas instituições de ilegitimidade quando perde.

Nesse ambiente, a política deixa de ser um instrumento de construção coletiva e passa a funcionar como uma torcida organizada.

O tamanho da herança

O próximo presidente receberá muito mais do que apenas contas públicas, ministérios e programas governamentais. Receberá um país emocionalmente exausto, politicamente fragmentado e institucionalmente desconfiado.

Terá de lidar com um Congresso forte e altamente pulverizado, pressões fiscais, demandas sociais acumuladas, necessidade de crescimento econômico, insegurança jurídica e uma população que espera soluções rápidas para problemas construídos ao longo de décadas.

Também encontrará brasileiros que já não conseguem conversar sobre política na própria família.

Talvez essa seja uma das heranças mais perigosas. Uma nação pode recuperar reservas financeiras, reorganizar ministérios e reformar sistemas administrativos. Reconstruir confiança, porém, exige tempo, transparência e disposição para reconhecer erros.

Nenhum presidente conseguirá governar satisfatoriamente metade do país tratando a outra metade como inimiga.

Banco Master: um roteiro que alcançou a República

Se a crise brasileira precisasse de um único caso para representar a perda de confiança nas instituições, o escândalo do Banco Master seria um forte candidato.

O que começou como uma crise financeira acabou revelando uma extensa rede de relacionamentos entre o banqueiro Daniel Vorcaro, empresários, políticos, autoridades, intermediários e pessoas próximas aos centros de poder. A cada nova fase da investigação, o caso parece ganhar um novo personagem e atravessar mais uma porta da República.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado em 18 de novembro de 2025. A dimensão do colapso se revela nos números. O Fundo Garantidor de Créditos estimou aproximadamente 800 mil credores e R$ 40,6 bilhões em garantias. Até julho de 2026, cerca de R$ 40 bilhões já haviam sido pagos aos investidores atingidos. Embora o FGC seja financiado pelas instituições participantes do sistema financeiro, uma operação dessa magnitude afeta sua capacidade de proteção e acarreta consequências para todo o mercado. Banco Central e FGC

Por trás dessas cifras estão pessoas comuns. São famílias, aposentados, pequenos empresários e investidores que acreditaram estar aplicando suas economias em produtos supervisionados pelo sistema financeiro brasileiro. Muitos receberam valores dentro dos limites da garantia. Outros ainda enfrentam as consequências de investimentos que ultrapassavam a cobertura prevista.

Mas o caso deixou de ser apenas bancário.

No Legislativo, parlamentares passaram a cobrar investigações sobre possíveis relações do banco com integrantes do Congresso, governos, fundos públicos e estruturas partidárias. Um pedido de CPI reuniu 53 assinaturas, mas sua instalação acabou se transformando em outra disputa política e judicial. Senadores chegaram a recorrer ao Supremo Tribunal Federal para tentar obrigar a leitura do requerimento. Senado Federal

No Executivo, as investigações levantaram questionamentos sobre a atuação dos órgãos de fiscalização, as negociações envolvendo instituições públicas e o acesso que dirigentes do banco mantinham junto às autoridades. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi ouvido pela CPI do Crime Organizado sobre possíveis falhas ou interferências no processo de supervisão do Master. Senado Federal

No Judiciário, contratos advocatícios milionários, encontros e mensagens atribuídos a pessoas envolvidas no caso passaram a alimentar suspeitas de conflito de interesses e de proximidade indevida entre investigados e autoridades. As revelações mais recentes provocaram pedidos públicos de apuração independente e imparcial.

É indispensável registrar que relacionamento, mensagem, reunião ou contrato não constituem, isoladamente, prova de crime. Todas as pessoas citadas possuem direito de defesa e devem ser tratadas como inocentes enquanto não houver condenação definitiva. Mas essa cautela jurídica não afasta a obrigação de investigar.

O caso Master tornou-se um verdadeiro roteiro de filme. Há um banqueiro cercado de conexões políticas, cifras bilionárias, investidores desesperados, documentos, celulares, mensagens recuperadas, encontros reservados, contratos milionários, disputas dentro das instituições e personagens ligados aos três Poderes.

O problema é que não se trata de ficção.

O que está em jogo não é apenas descobrir quem recebeu dinheiro, quem facilitou negócios ou quem manteve relações com o banco. A questão mais profunda é saber se a proximidade com pessoas poderosas permitiu que um modelo financeiro arriscado crescesse por tanto tempo sem encontrar barreiras suficientes.

Também será necessário explicar por que os mecanismos de controle, fiscalização e transparência aparentemente não conseguiram interromper o problema antes que ele alcançasse tamanha dimensão.

O Banco Master sintetiza a crise moral brasileira ao revelar uma República em que as fronteiras institucionais parecem cada vez menos visíveis. Empresários transitam entre gabinetes; autoridades mantêm relações com pessoas que podem ser alcançadas por suas próprias decisões; e interesses privados se aproximam perigosamente das estruturas públicas.

Se as investigações confirmarem interferências, favorecimentos ou conflitos de interesses, as responsabilidades deverão alcançar todos os envolvidos, independentemente do cargo, partido, sobrenome ou Poder ao qual pertençam.

Se as suspeitas não forem comprovadas, as pessoas injustamente acusadas deverão ter suas reputações restabelecidas.

O que o Brasil não pode aceitar é que o caso desapareça sob o peso dos próprios nomes que alcançou.

Porque, quando um escândalo atravessa o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, a pergunta deixa de ser apenas quem participou.

A pergunta passa a ser: quem ainda possui independência suficiente para investigar?

Qual é o melhor caminho para os brasileiros?

A resposta não está à espera de um salvador. O Brasil já depositou esperança excessiva em personalidades, partidos e discursos messiânicos. Todas as vezes que um líder é apresentado como a única pessoa capaz de salvar a nação, a democracia se torna mais frágil.

O melhor caminho é substituir a paixão eleitoral pela responsabilidade cívica.

O eleitor precisa examinar propostas, histórico, equipe, alianças, capacidade administrativa e compromisso com as regras democráticas. Precisa perguntar de onde virá o dinheiro para cada promessa. Precisa observar se o candidato respeita as instituições apenas quando é favorecido por elas. Precisa acompanhar quem financia campanhas e quais grupos estarão ao redor do poder.

Também é fundamental desconfiar de conteúdos que provocam indignação instantânea. Antes de compartilhar uma acusação, é necessário verificar sua origem. Antes de transformar uma investigação em sentença, é preciso conhecer os fatos. Antes de repetir que toda decisão é censura ou que toda crítica é desinformação, convém examinar o contexto.

Não cabe à Facebrasil escolher, comparar ou classificar candidatos ou partidos. Essa decisão pertence exclusivamente ao eleitor. O papel do jornalismo é fazer perguntas, apresentar fatos verificáveis e cobrar de todos o mesmo padrão de transparência.

O Brasil depois das urnas

O verdadeiro teste democrático não ocorrerá apenas no dia da votação. Ele começará na manhã seguinte.

Quem vencer precisará compreender que vitória eleitoral não é autorização para governar sem limites. Quem perder terá o direito de fiscalizar, criticar e organizar a oposição, mas também a obrigação de respeitar os resultados legítimos e de utilizar os instrumentos previstos em lei.

O Brasil precisa voltar a aceitar que adversário não é criminoso por definição, que juiz não deve ser ator político, que parlamentar não possui licença para agir sem responsabilidade e que governante não é proprietário do Estado.

Seja quem for o próximo presidente, ele receberá um país ferido. A pergunta é se encontrará brasileiros dispostos a reconstruí-lo ou apenas grupos à espera da próxima oportunidade de vingança.

O futuro brasileiro não será determinado exclusivamente pelo nome escolhido nas urnas. Será determinado pela capacidade do país de recuperar princípios básicos: liberdade com responsabilidade, justiça com imparcialidade, poder com limites e cidadania sem fanatismo.

Porque, depois de toda essa guerra política, talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que sobrará para o próximo presidente.

É o que sobrará do Brasil para os brasileiros.

@marcoalevato

@facebrasil

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