Livros

Cartas do Faraó: outros mundos, as mesmas perguntas

Marco Alevato

Editor

Uma leitura sobre o desconhecido, a inquietação humana e aquilo que levamos conosco quando decidimos recomeçar.

Há livros que entendemos logo nas primeiras páginas. Outros nos deixam perguntas que continuam conosco muito depois de fecharmos a última.

Minha experiência com Cartas do Faraó. Viagens com Ele aos Outros Mundos foi assim. Na primeira leitura, surgiram muitas dúvidas. Ao reler, entendi coisas que antes haviam passado por mim sem encontrar lugar. A viagem continuava sendo a mesma, mas eu já conseguia enxergar outras possibilidades dentro dela.

Ontem, pensando em algumas passagens e na vida que estamos levando, decidi trazer esse livro para a Biblioteca Facebrasil. Ele me fez pensar na nossa vontade de descobrir outros mundos e outras mentes e na dificuldade que temos de compreender o mundo que carregamos dentro de nós.

Uma porta para o desconhecido

Publicado pela Vahali, o livro pertence ao universo da literatura espiritualista e esotérica. Sua apresentação associa o faraó Zoser a ensinamentos espirituais voltados à recuperação da alegria de viver e ao exercício da bondade, da justiça, da honestidade e da caridade. São ideias apresentadas dentro da tradição espiritual da obra.

Em um trecho divulgado pela própria Vahali e identificado como parte de Cartas do Faraó, aparecem mensagens atribuídas a Zoser e Josias, com referências à caminhada espiritual, à consciência e à paz que cada pessoa precisa cultivar em sua conduta. A linguagem envolve luz, mestres e caminhos de evolução, exigindo do leitor disposição para entrar nesse universo de crenças.

Essa é uma breve apresentação da proposta espiritual do livro. A reflexão que faço a partir dela segue também por outro caminho: o da nossa experiência cotidiana.

Podemos nos aproximar de uma leitura como essa com fé, curiosidade ou perguntas. Minha primeira leitura gerou muitas perguntas. Na segunda, consegui perceber relações que antes não havia considerado.

Talvez esse seja um dos encontros mais interessantes que a literatura proporciona. Voltamos às mesmas páginas depois de viver mais um pouco e encontramos sentidos que antes não conseguíamos alcançar.

O próximo lugar promete tanto

A busca pelo desconhecido faz parte da nossa história. Foi ela que nos levou a atravessar oceanos, estudar o céu, desenvolver tecnologias e imaginar futuros diferentes.

Também é ela que nos faz procurar um trabalho melhor, construir uma empresa, começar um relacionamento ou fazer as malas para outro país.

Existe coragem nessa inquietação. Muitas conquistas começam quando alguém percebe que precisa mudar.

Mas podemos passar a esperar que cada mudança resolva tudo. O próximo emprego trará reconhecimento. A próxima cidade oferecerá tranquilidade. O próximo relacionamento preencherá uma lacuna. O próximo país será, finalmente, o lugar onde a vida encontrará seu equilíbrio.

Quando o novo se torna cotidiano, descobrimos dificuldades que não estavam nos nossos planos. E aquela sensação de incompletude pode voltar.

A pergunta merece uma pausa: o que, exatamente, esperávamos encontrar?

A bagagem que atravessa a fronteira

Quem imigrou conhece a força de um recomeço. Há razões muito concretas para deixar um país: segurança, oportunidades, educação dos filhos, liberdade, trabalho e a possibilidade de construir uma vida mais estável.

Essas razões merecem respeito. Há mudanças que melhoram profundamente a vida de uma família.

Ao mesmo tempo, a imigração nos apresenta uma descoberta íntima: continuamos sendo nós mesmos do outro lado da fronteira.

Levamos nossa capacidade de trabalhar, nossa coragem e nossos sonhos. Levamos também os medos, as expectativas e as dificuldades que ainda não conseguimos compreender.

Podemos gostar da vida que construímos nos Estados Unidos e sentir falta do Brasil. Podemos reconhecer as oportunidades daqui e sofrer com a distância da família. Podemos alcançar uma meta importante e descobrir que ainda precisamos de amizade, descanso ou pertencimento.

Esses sentimentos podem existir juntos. Sentir saudade ou frustração não apaga o valor da escolha que fizemos.

O problema surge quando esperamos de um país uma plenitude que envolve tantas outras partes da vida. Nenhum endereço consegue, sozinho, cuidar dos nossos vínculos, dar sentido ao trabalho e responder a todas as nossas perguntas.

Essa é a correlação que a lembrança do livro me despertou: a exploração do desconhecido exterior pode caminhar junto com a disposição de conhecer o próprio interior.

Outras mentes, aqui mesmo

Pensar em outros mundos também me levou a refletir sobre nossa dificuldade de conviver com outras maneiras de ver este mundo.

Temos curiosidade sobre o universo, mas às vezes perdemos a paciência diante de uma opinião diferente na mesa de jantar.

Nas divisões políticas e sociais, podemos reduzir pessoas inteiras a uma única posição. O vizinho passa a ser o candidato em quem votou. O amigo vira a opinião que publicou. Uma conversa de muitos anos se reduz a uma discussão.

Discordar faz parte da convivência. Há ideias que precisam ser questionadas e atitudes que exigem limites. Ainda assim, podemos defender uma convicção e procurar compreender como outra pessoa chegou às suas conclusões.

Essa disposição exige alguma humildade. Todos enxergamos a vida a partir de experiências que os outros não viveram por completo.

Para nós, imigrantes, essa percepção tem um significado especial. Sabemos como é ser interpretado por um sotaque, uma nacionalidade ou uma condição migratória. Conhecemos o desconforto de sermos reduzidos a uma categoria.

Podemos usar essa experiência para olhar com mais atenção para quem está ao nosso lado.

O que a releitura permite

Reler um livro é uma oportunidade de perceber como estamos pensando.

Na primeira vez, uma passagem provoca estranhamento. Mais tarde, depois de perdas, conquistas, mudanças e encontros, ela pode despertar uma reflexão diferente. Podemos continuar discordando de partes da obra e, ainda assim, reconhecer o valor das perguntas que ela trouxe.

Foi assim comigo em Cartas do Faraó. A primeira leitura abriu dúvidas. A segunda ampliou minha compreensão.

Ao escolhê-lo para nossa coleção, quero compartilhar essa experiência de abertura: permitir que uma leitura nos acompanhe, nos provoque e encontre novas relações com a vida ao longo do tempo.

Onde queremos chegar?

Continuaremos procurando. Há muito a conhecer, dentro e fora de nós. Temos projetos para realizar, lugares para descobrir e condições de vida que merecem ser melhoradas.

Podemos seguir nessa direção prestando atenção também ao que já construímos. Uma família, uma amizade, um trabalho honesto, uma conversa em paz. Coisas que podem perder espaço quando toda a nossa atenção está depositada na próxima conquista.

A lembrança desse livro me trouxe de volta uma pergunta que vale levar para a semana:

O que estamos buscando tão longe que ainda não conseguimos reconhecer de perto?

Talvez cada leitor encontre uma resposta diferente. A minha continua sendo construída, entre uma leitura e outra, entre os mundos que desejo conhecer e a vida de que tenho a responsabilidade de cuidar.

Queremos mudar de lugar ou mudar por dentro?

Quando sentimos uma urgência de mudar, vale perguntar: o que desejamos transformar no ambiente e o que gostaríamos de transformar em nós mesmos?

Nem sempre é fácil distinguir. O desconforto parece ter um endereço: a cidade onde moramos, a empresa em que trabalhamos, o relacionamento que vivemos. Podemos identificar razões legítimas para partir. Mas também podemos depositar na mudança a esperança de nos tornarmos mais confiantes, mais tranquilos ou mais satisfeitos com a própria vida.

Para quem imigra, essa pergunta ganha força. A nova terra pode oferecer segurança e oportunidades, enquanto a sensação de inquietação permanece. Isso pode revelar expectativas que precisam ser revistas, necessidades que ainda não reconhecemos ou dificuldades reais de adaptação. Merece atenção, sem culpa e sem julgamentos apressados.

Talvez um primeiro passo seja completar, com sinceridade, esta frase: “Quando eu mudar, espero finalmente me sentir…”. A resposta pode nos ajudar a compreender o que estamos pedindo à próxima etapa da vida.

Se esperamos nos sentir respeitados, precisamos observar as condições em que vivemos e os limites que estabelecemos. Se buscamos pertencimento, precisamos considerar os vínculos que desejamos construir. Se procuramos paz, vale olhar também para a maneira como lidamos com nossas cobranças e expectativas.

Há momentos em que partir é necessário. Em outros, precisamos de tempo para compreender o desconforto antes de decidir. E há situações em que a transformação exige as duas coisas: mudar as circunstâncias e desenvolver novas formas de viver dentro delas.

Essa é mais uma reflexão que a leitura me desperta: que parte da mudança desejada depende do próximo lugar e que parte já podemos começar aqui?

E você? Qual livro ganhou um novo significado quando foi relido? Compartilhe sua experiência com a Facebrasil.

@marcoalevato

@facebrasil  

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