Seu próximo cliente vai perguntar à IA
Marco Alevato
Editor

Seu próximo cliente pode encontrar sua empresa pela inteligência artificial
ChatGPT, Gemini e outras ferramentas estão mudando a forma como as pessoas buscam produtos e serviços. Estudos confirmam a transformação, mas a comparação de 6% para 40% exige cuidado.
Durante anos, uma cena se repetiu na vida de quem precisava comprar alguma coisa ou contratar um serviço: abrir o Google, digitar algumas palavras e percorrer uma lista de resultados. Hoje, essa jornada pode começar com uma conversa. O consumidor explica o que procura, informa seu orçamento, descreve suas necessidades e pede à inteligência artificial que organize as opções.
A mudança parece pequena na tela, mas pode ser grande para o comércio. Entre o desejo de comprar e a visita ao site de uma empresa, surge um novo intermediário capaz de comparar características e apresentar uma seleção de alternativas. Para o empresário brasileiro nos Estados Unidos, isso acrescenta uma pergunta à rotina: como minha empresa é apresentada quando alguém pede uma recomendação à IA?
Pesquisas publicadas em 2025 e 2026 documentam essa transformação. Entretanto, uma afirmação que chama a atenção é a de que o uso de IA nas buscas teria passado de aproximadamente 6% para quase 40% em um ano, o que não foi confirmado por uma série comparável de um estudo de Harvard. Os números existem em contextos diferentes, e entender essa diferença ajuda a enxergar o fenômeno com precisão.
Os 6% e os 40% não contam a mesma história
Em julho de 2025, uma reportagem do The Wall Street Journal, repercutida pelo PYMNTS, apresentou dados da empresa de inteligência de mercado Datos. Em junho daquele ano, ferramentas de IA representavam 5,6% do tráfego de busca em navegadores de computadores nos Estados Unidos, no universo analisado. A medição excluía navegadores móveis e aplicativos.
A mesma cobertura informou que, entre os consumidores que já utilizavam chatbots quando o acompanhamento começou, em abril de 2024, a parcela de buscas em computadores direcionada à IA chegou a 40% em junho de 2025.
Portanto, os dois percentuais já apareciam em 2025. Um descrevia o conjunto observado; o outro, um grupo de primeiros usuários. Não demonstravam uma passagem de 6% em 2025 para 40% em 2026. Também não eram uma medida exclusiva da demanda por produtos e serviços. [1]
A distinção evita uma conclusão enganosa: não há, nessas informações, base para anunciar que a IA respondeu a 40% de todas as buscas no Google. Há evidência de adoção expressiva em determinados públicos.
O que o estudo ligado a Harvard realmente encontrou
Existe uma pesquisa pertinente ao tema na Harvard Business School. O trabalho “The Adoption and Usage of AI Agents: Early Evidence from Perplexity”, datado de dezembro de 2025, tem autoria de Jeremy Yang, de Harvard, e pesquisadores da Perplexity. Trata-se de um working paper, uma versão de pesquisa apresentada para discussão.
O estudo examinou interações com o navegador Comet e seu assistente entre julho e outubro de 2025. Na classificação das tarefas, a busca e a filtragem de produtos apareciam em 6,43% das consultas ao agente analisadas. A categoria mais ampla de compras correspondia a cerca de 10% das consultas.
Esse percentual mede a composição do uso de um agente específico. Não mede a participação de mercado em relação ao Google, nem o percentual de todos os consumidores que pesquisam compras com IA. O trabalho oferece uma janela para o comportamento dos usuários do Comet, não um retrato de toda a internet. A participação de pesquisadores da própria plataforma também deve fazer parte da identificação da fonte.
Pesquisas de 2026 mostram uma mudança real
Um levantamento divulgado em fevereiro de 2026 pela agência Eight Oh Two Marketing ouviu 500 usuários ativos de inteligência artificial. Nesse grupo, 37% disseram ter começado suas buscas em ferramentas de IA, em vez de no Google ou no Bing.
O resultado se aproxima dos 40% mencionados, mas seu alcance precisa ficar explícito: a amostra é de usuários ativos de IA. Não se pode tratar esse grupo como se representasse automaticamente todos os consumidores. Na mesma pesquisa, 85% declararam conferir respostas por meio de mecanismos tradicionais de busca. A conversa pode iniciar a jornada, enquanto a busca convencional ajuda na verificação.
Outro levantamento, da Yext, ouviu 1.120 adultos nos Estados Unidos em março de 2026. Segundo a empresa, 47% disseram ter usado uma ferramenta de IA para encontrar um negócio local no mês anterior. É um indicador diretamente relacionado à descoberta de estabelecimentos e serviços, mas continua sendo um uso declarado, e não a participação no volume total de buscas.
A adoção em compras também já era relevante em 2025: uma pesquisa da Adobe com 5.000 consumidores americanos registrou que 38% haviam utilizado IA generativa para compras online. Isso reforça a importância do comportamento, sem estabelecer a suposta evolução de 6% para 40%. [5]
Da palavra-chave à necessidade completa
Imagine um brasileiro recém-chegado a Orlando procurando uma empresa para produzir a comunicação visual de sua loja. Em uma busca rápida, ele poderia digitar “sign company Orlando”. Em uma conversa, poderia explicar: “Preciso de um letreiro para uma loja pequena, quero atendimento em português e ajuda para entender a instalação e a autorização. O que devo perguntar antes de contratar?”
O segundo pedido apresenta necessidades, contexto e dúvidas. Mesmo quando a ferramenta não fornece uma recomendação confiável de fornecedor, ela pode ajudar a organizar critérios e preparar perguntas. O consumidor chega à etapa seguinte com uma ideia mais clara do que precisa.
O desafio de ser compreendido
Para um negócio, ter presença digital passa a envolver a qualidade das informações que explicam sua atuação. Um site que diz apenas “qualidade e excelência” oferece menos elementos para comparação do que uma página que detalha produtos, materiais, área atendida, prazos e condições.
Há uma razão para olhar além do próprio site. Uma análise da McKinsey, publicada em outubro de 2025, descreve respostas de busca com IA que recorrem a fontes variadas, incluindo publicações, avaliações e conteúdo de usuários. A fonte consultada muda conforme a plataforma, a pergunta e a categoria. [6]
Para o empresário imigrante, a consequência é cuidar da coerência da sua apresentação pública. Nome, localização, contato e descrição dos serviços devem ajudar o cliente a reconhecer o mesmo negócio em diferentes canais. Isso melhora a clareza da informação; não assegura uma recomendação do chatbot.
O Google participa dessa transformação
Apresentar o cenário como uma disputa entre “Google” e “inteligência artificial” simplifica demais a realidade. O próprio Google incorpora recursos de IA à busca, como AI Overviews e AI Mode. O Gemini também pertence ao Google.
A orientação oficial do Google para suas experiências de busca com IA afirma que as boas práticas de SEO continuam relevantes. Não há uma otimização especial obrigatória para aparecer nesses recursos. A empresa recomenda conteúdo útil e confiável, informações importantes em texto e dados atualizados nos cadastros comerciais. Cumprir as orientações não garante inclusão. [7]
Uma nova porta de entrada para o comércio
O que os estudos permitem afirmar é relevante: a IA já participa da descoberta de produtos, da comparação de opções e da busca por negócios locais. O que não permitem é somar percentuais de universos diferentes e anunciar uma substituição generalizada do Google.
Para os brasileiros que empreendem nos Estados Unidos, o caminho é observar como os clientes pesquisam e melhorar as informações que encontram. Isso pode começar com uma revisão simples: seus serviços estão claros? As cidades atendidas aparecem? Os contatos estão atualizados? As dúvidas frequentes recebem respostas úteis?
Antes de pagar, o consumidor deve conferir diretamente com o fornecedor os preços, a disponibilidade, as especificações e as condições. Uma resposta convincente ainda precisa ser verificada.
A próxima venda pode começar em uma conversa com uma inteligência artificial. A confiança continuará dependendo do que a empresa conseguir comprovar e entregar.
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