Entrevista com uma “Sapatão”

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Não me lembro se era uma manhã de sábado ou domingo, só tenho certeza de ter me atrasado para a primeira aula, como sempre. A turma da pós em educação sexual mal se conhecia. Me incomodei com a opinião de uma professora e me atrevi a questioná-la. Outra garota se posicionou, com muito mais calma e educação do que eu. Mônica Saldanha. Falou sobre o preconceito que sentia na pele ao andar na rua de mãos dadas com a namorada. A primeira coisa que pensei foi “Ufa, temos pelo menos uma lésbica na sala”.

É que gosto da diversidade: eleva as discussões (e as pessoas) a outro patamar. Especialmente num curso sobre sexualidade humana.

Só sei que me aproximei dela com alguma direta parecida com “Oi, meu nome é Nathalia e eu quero ser sua amiga”. “Sald” tem 24 anos, é formada em Letras. Talvez seja a pessoa da pós com quem mais dou risada e debato. Ultimamente, ela se debruçou sobre a “violência sexual contra lésbicas”, tema de um artigo científico que escreveu e de sua futura monografia.

NZ– Você já me disse que gosta de ser chamada de sapatão. Por quê?

Sald – Eu fui chamada de sapatão a vida toda, e isso me fazia sentir completamente fora de lugar. Eu não era parte “dos meninos” nem “das meninas”, eu era a sapatão. Descobrir que eu era uma pessoa normal e que existiam outras meninas como eu foi uma das melhores sensações da minha adolescência. Hoje, se alguém me chama de sapatão, acho graça e respondo “Nossa, obrigada por me avisar. Eu realmente não sabia. Agora tá tudo explicado”.

NZ– Muitas pessoas acham que se trata de uma escolha. O que você diria a elas?

Sald – Ninguém escolhe se sentir atraído por alguém ou alguma coisa. Não é uma coisa racional, então não pode ser uma escolha. Para mim, declarar-se lésbica tem muito mais a ver com a postura que você tem em relação à sua sexualidade, ao seu direito de dispor do seu corpo, ao seu direito de desejar de forma livre, independentemente do que lhe ensinaram.

NZ – No “estupro corretivo”, o abusador diz: “Você vai aprender a gostar de homem”. A sua tese de pós-graduação será sobre violência sexual contra lésbicas. Por que ela acontece?

Sald – Na verdade, o estupro corretivo não é tão diferente do estupro de mulheres héteros: é uma demonstração de poder e posse sobre o corpo de outra pessoa. Ambos acontecem porque o homem acredita que o corpo da mulher tem que ser um espaço aberto pra ele. O estupro corretivo acontece justamente porque a lésbica nega.

NZ – Embora pareça óbvio, vamos desenhar: alguma lésbica deixa de ser lésbica porque foi penetrada à força?

Sald – Ser forçada a fazer sexo com um homem não faz com que uma lésbica passe a se interessar por homens, não faz com que ela seja menos lésbica; só faz dele um estuprador. A orientação sexual é uma questão de desejo, de sexo; o estupro é uma questão de poder, de dominação.

NZ – O que a sociedade precisa fazer para proteger todas as mulheres, gays ou não?

Sald – Precisamos conscientizar os homens de que eles não são donos dos corpos das mulheres. Também é importante conscientizar as mulheres de que elas são donas da própria sexualidade. Quando homens tiverem a consciência de que a mulher é um ser humano – com vontade, autonomia, direito sobre o próprio corpo, desejo –, eles passarão a respeitar as escolhas femininas, mesmo que essa escolha seja a de não se relacionar com eles.

Nathalia Ziemkiewicz é jornalista e autora do blog napimentaria.com.br.
Aposta que informação pode ser mais transmissível que muita doença