Franciscão, o Gay – Um conto de Joselito Müller

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Antes de Franciscão ser assassinado, quase todos nós, seus amigos, o advertimos para que deixasse desse negócio de comer mulher casada.

Talvez poucos de nós acreditássemos realmente que uma desgraça dessa poderia acontecer com alguém tão próximo, já que é comum ao ser humano pensar que tragédias só acontecem com os outros, mas a prudência do conselho se mostrou pertinente após o anúncio de sua morte.

O que eu soube a respeito do ocorrido foi por meio da imprensa, versão a qual somei os pedaços de informações que um ou outro conhecido em comum me disse ao longo daquela triste semana, a partir das quais eu formei minha própria versão composta de partes que confirmavam e partes que desmentiam aquela divulgada pelos jornais de crimes.

Um fato amplamente divulgado que causou grande comoção em todo o município, (oriundo de um mal entendido dos diabos), nos impediu de lograr êxito em esclarecer a verdade sobre o ocorrido, algo que nos empenhamos debalde em homenagem à memória de nosso querido amigo.

Já fazia uns dias que Franciscão não encontrava a rapaziada para tomar umas cervejas depois do expediente, informando relutante certa vez ao me telefonar que estava meio cismado com o marido de uma quarentona enxuta (o adjetivo é dele) que estava comendo há um certo tempo.

Franciscão foi cauteloso durante uns dias, achando que estava sendo seguido, mas habituado ficar impune há anos à perigosa vida de comedor de esposas alheias, findou por afrouxar a vigilância e logo combinaria outros encontros com a tal quarentona, sem antevê que a morte o encontraria em breve.

– Franciscão, filho da mãe!, com tanta mulher solteira por aí, você se arriscando pegando mulher comprometida. Deus o livre, mas você vai acabar se dando mal com esse negócio.

– O marido dessa que estou comendo trabalha embarcado numa plataforma da Petrobrás e não tem perigo de descobrir. Os caras não dão assistência e eu só estou cumprindo uma função social – respondeu com seu típico sorriso de cretinocrata.

– Mas você outro dia achava que o cara estava na tua cola.

– Cisma minha. Ela me disse que o marido embarcou já tem uns dias e só deve chegar em duas semanas. Enquanto isso, é só love.

Após algumas cervejas, apertamos as mãos num gesto de despedida que não sabíamos que seria o último.

Na manhã seguinte, havia mais de uma dezena de chamadas em meu celular e antes mesmo de poder retornar algumas delas, o telefone anunciou mais uma entre tantas.

Ao atender recebi a trágica notícia.

Testemunhas do crime afirmaram que viram Franciscão sair correndo do estacionamento do bar onde nos encontramos na véspera.

Ao que tudo indica seu algoz o aguardou sorrateiro entre os carros para abatê-lo longe de eventuais testemunhas.

Verdugo e vítima foram vistos correndo pelas ruas.

Não consta no inquérito policial detalhes sobre a perseguição. Fato é que, escapulindo pelas esquinas, entre um beco e outro, Franciscão findou por ser alvejado exatamente em frente a uma famosa boate gay (na época, a única da cidade), o que ocasionou a interrupção do show de um cara que fazia couvert da Roberta Miranda, conforme disseram os jornais.

No dia seguinte, a imprensa em uníssono divulgou a notícia ressaltando que a motivação do crime fora “homofobia”, algo inédito até então em nossa pacata cidade, que em poucos dias se familiarizou com o termo até então desconhecido.

Nas matérias dos jornais era possível adivinhar um certo regozijo, já que aquele crime colocava nossa provinciana urbe entre aquelas que eram palco de “crimes de ódio”.

“Especialistas” abordaram o ocorrido à exaustão em artigos de jornal e entrevistas na TV e no rádio.

E quando foi anunciada a primeira passeata do “Orgulho gay”, na qual a imagem de Franciscão seria utilizada como símbolo, achei que aquilo já estava indo longe demais e tomei coragem, juntamente a alguns amigos, de fazer contato com as redações dos jornais locais e explicar o ocorrido.

– Qual o problema do cara ser lembrado como gay? – questionou certa vez o redator de um jornal local.

– O problema é que isso não corresponde à verdade.

– Mas se você acha que é uma mácula à imagem dele, é porque você é tão preconceituoso quanto o cara que o matou.

– Mas o cara não matou por preconceito, matou porque ele comia a mulher dele.

– Quem me garante que você não está inventando essa história só porque não quer admitir que era amigo de um gay e acabar levando fama também?

Todas as nossas tentativas foram em vão, e cada uma delas, de modo expresso ou tácito, nos rendeu o epíteto de preconceituosos.

Ao fim, prevaleceu a versão que transformou nosso amigo Franciscão em ícone de algo com que ele jamais teve afinidade.

O destino, e suas ironias que imitam clichês da subliteratura, tornou o mais mulherengo entre nossos amigos em Franciscão, o gay.


Todos os meses um novo conto de Joselito Müller aqui na revista brasileira mais lida pela comunidade brasileira da Florida.

Leia esta e outras mais em www.joselitomuller.com