Morar na America por uma infância pacífica

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Por volta dos meus 6 anos, assim que comecei a aprender a escrever, me tornei uma escritora animada. Passava horas com meu caderno inventando historinhas para mostrar para meu avô. Tínhamos um grande amor um pelo outro e conversávamos horas a fio sentados na cozinha de casa. Eu em seu colo, atenta aos seus ensinamentos.

Mais tarde, me lembro de passar horas na biblioteca lendo trechos de livros até ter certeza de qual levaria para casa. Mas não se enganem, eu não era nenhuma santa, como diriam minha mãe e avó. Pulava, dançava, pintava e bordava, brincava durante horas na rua de casa.

Nos fins de semana, ia à fazenda com meus tios e primos. Adorávamos as aventuras diurnas pelos matos, rios, pastos, mas aguardávamos ansiosos pelo início da noite, quando meu tio sentava com o lampião na varanda e contava histórias de onças, cobras e outros perigos que enfrentava o homem no campo. Escutávamos atentos e depois, com medo de sair da casa na escuridão, íamos para a cama. Mas antes de dormir, brincávamos de sombra com a lamparina do quarto, recontando as histórias com as mímicas que conseguíamos criar com as mãos e dedos.

Assim, eu ia acumulando histórias – reais ou inventadas. Eu poderia escrever um longo livro sobre todas as memórias que vivi na infância, que me alimentam de sonhos e esperanças até hoje. Então, às vezes me pergunto: onde está a poesia na vida das crianças atualmente?

A rotina dos pais e filhos anda cada vez mais corrida e cheia de atividades, no intuito de formar a criança nas mais diversas áreas do conhecimento, estimulando-a das mais variadas maneiras. Nos preocupamos com quais atividades estão sendo oferecidas nas escolas, se elas oferecem programas bilíngues (no mínimo), qual o espaço físico e facilidades, quem são os professores, qual clube as crianças frequentam, qual shopping, qual festa, quem são os amigos, etc., etc.

No artigo anterior, questionei sobre os hábitos de consumo e o tempo que as famílias passavam juntas sem consumir. Hoje pergunto: o que as crianças estão aprendendo em casa, com os pais, sobre o mundo e a vida? Quais imagens, cheiros, sabores, afetos estão sendo gravados nas memórias deles diariamente? Como nós, adultos, estamos ensinando as crianças que nos rodeiam sobre a poesia da vida?

E me refiro àquelas crianças que estão em nossa casa, na loja, no supermercado, na rua, enfim, no nosso entorno, de olhos bem abertos, observando e copiando esses adultos que os rodeiam. O que temos feito, nós, modelos de comportamento? Como levamos a vida? Como tratamos cada pessoa com quem cruzamos na nossa vida? Somos respeitosos? Humildes? Gentis?

Eu acredito que os brasileiros que vão com suas famílias morar nos Estados Unidos se preocupam tanto com os modelos para seus filhos que decidiram proporcionar um ambiente de imersão no “primeiro mundo” para eles. É uma oportunidade que os colocará à frente no mercado de trabalho se comparados com grande parte dos brasileiros, por exemplo.

Só busco relembrar aqui a importância de pais e mães compartilharem esses momentos poéticos cotidianos com seus filhos. Lembrem-se de que é disso que se alimenta nossa alma depois que estamos longe dos nossos entes amados, contruindo nossas vidas pelo mundo, enfrentando os desafios de virarmos adultos.

Taciana Vaz é formada em Letras e dá aulas de idiomas. Autora do blog namochiladataci.blogspot.com.br, gosta de ler e escrever sobre educação, viajar e trocar conhecimento mundo afora