Na cadeia com Eike Batista: ambição de curto prazo

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Sempre ouvi falar que quando você vai preso, os caras mais antigos te pegam” na cadeia. Não conseguia pensar noutra coisa enquanto era levado no camburão da polícia para o Centro de Detenção, em razão de uma ordem judicial que minha ex-mulher havia pedido porque eu estava há uns cinco meses sem pagar pensão alimentícia.
O que ela queria que eu fizesse, já que estava desempregado há quase um ano e mal conseguia sustentar a mim mesmo?
Não que eu achasse que não devia contribuir com o sustento de minha filha, apesar de a garota não me suportar e tratar o atual marido da mãe como se fosse o verdeiro pai, mas o fato é que eu estava numa miséria danada e por conta da inadimplência, o juiz me mandou para o calabouço.

“Minha filha já tem vergonha de mim, e vai ter ainda mais quando souber que os presidiários comeram minha bunda”, pensei quando um carcereiro indicou para os caras que me conduziram a cela onde eu ficaria.

–  Mas esse aqui foi preso por não pagar pensão alimentícia – explicou um dos condutores.
-Ah, então coloca ele ali – determinou o mais autorizado entre eles, apontando para uma cela onde estavam somente uns cinco caras.
Os detentos permaneceram indiferentes à minha chegada, até o momento em que esmurrei um deles aleatoraimente e gritei que ali ninguém comeria minha bunda.
– Calma, senhor – disse o homem que eu havia agredido segurando o queixo, enquanto outro foi pegar uma pedra de gelo num frigobar quase escondido num canto de parede próximo à entrada do banheiro.
– E pode ter frigobar aqui? – perguntei e um cara com a cabeça raspada, que até então eu não notara, perguntou se eu aceitava uma água e apontou para uma cadeira, quase como se estivesse ordenando que eu me acomodasse.
– Mas você é o…
– Sim.
– Porra! Isso só pode ser uma pegadinha. Tu é o Eike Batista?
Os outros presos me arrodearam, pedindo que eu tratasse com respeito o “doutor”, como se eu tivesse cometido alguma ofensa.
– Desculpa, doutor, ele é novato e nós vamos passar as regras para ele – disse um, obtendo como resposta um gesto silencioso com uma das mãos.
– Quer falar o motivo pelo qual você foi trazido para cá? – perguntou Eike Batista.
– Pensão… não paguei pensão, porque estou desempregado.
– A que você atribui o fato de estar desempregado?
– Os tempos estão difíceis para conseguir um emprego com carteira assinada, apesar de eu ter procurado bastante.
– Já pensou se você utilizasse o tempo que vai ficar aqui para qualificar tua mão de obra e já sair da cadeia direto para o mercado de trabalho? – disse o magnata sorrindo – não sei se você tem conhecimento que uma de minhas empresas, a OGX, trabalha no ramo do petróleo, e para se achar petróleo é necessário procurar debaixo da terra, certo?
– Certo…
– Quais são suas ambições de curto e médio prazo?
– Primeiro, continuar com a bunda virgem, segundo sair daqui e arrumar o emprego, pagar o que devo e nunca mais voltar.
– Nossa empresa pode te ajudar a crescer profissionalmente – levantou sorrindo e apertou minha mão – está contratado.
Antes de eu me dar conta que havia participado de uma entrevista de emprego com concomitante recrutamento, um dos presos me tomou pelo braço e explicou, após colocar uma colher de metal na minha mão, que a empreitada na qual estavam empenhados consistia basicamente em cavar um buraco no fundo da cela.
– A terra retirada do buraco tem que ser juntada no canto e a cada três dias um agente que trabalha para nós facilita a saída do entulho para não dar na vista. Teu turno vai ser de oito horas diárias, começando às sete da manhã, com direito a uma hora de descanso para almoço e eventuais interrupções dos carcereiros, que serão computadas no banco de horas… Pode começar a cavar.

É evidente que estranhei o fato de os caras estarem cavando um buraco na cela para procurar petróleo, mas preferi evitar questionamentos, pois isso poderia inviabilizar minha permanência na empresa após sair da cadeia.

Fui solto alguns dias depois por ordem judicial, e até o momento em que estive lá, não logramos êxito em encontrar petróleo no subsolo da cadeia.

Talvez possa soar um tanto impertinente, mas não recebi nenhum direito trabalhista previsto na CLT após ser solto, tampouco o departamento pessoal da OGX sinalizou a intenção de me contratar do lado de cá dos muros.

Cheguei a enviar meu currículo para eles, no qual fiz constar a informação de que fui companheiro de cadeia do Eike Batista, mas fui solenemente ignorado até a presente data.

Tenho a esperança que o Eike vai me procurar quando ele sair da cadeia, já que demonstrei ser um bom funcionário.

Por enquanto, lamento que as coisas não tenham se dado como planejado e eu permanecer desempregado.

Agradeço a Deus, no entanto, que ao menos a minha primeira ambição de curto prazo – a de preservar a integridade física e moral das minhas nádegas e adjacências – eu ter conseguido alcançar.

Por Joselito Müller
www.joselitomuller.com