editorial

38 anos de histórias do Hospital de Clínicas no Rio

Marco Alevato

Editor

38 anos depois: existem coisas que ninguém consegue roubar

Em 13 de agosto de 1988, nascia no Rio de Janeiro um projeto de saúde que começou como um centro médico de excelência, transformou-se em um hospital e marcou profundamente a vida de quem o construiu. Hoje, 38 anos depois, o prédio permanece fechado. Mas talvez sua história nunca tenha terminado.

Existem lugares que fecham suas portas e desaparecem.

Outros permanecem.

Permanecem na paisagem, na memória e, de alguma maneira difícil de explicar, na vida daqueles que um dia passaram por eles.

Hoje, 13 de agosto de 2026, faz exatamente 38 anos que Lilian e eu inauguramos, no Rio de Janeiro, o Hospital de Clínicas Propícia – Dra. Lilian Alevato.

Naquele 13 de agosto de 1988 não inaugurávamos propriamente um hospital. O projeto nasceu menor, como um centro médico de excelência com características semelhantes às que hoje, nos Estados Unidos, chamaríamos de urgent care.

A proposta era oferecer atendimento médico de qualidade, com rapidez, organização e eficiência.

Parece simples hoje.

Naquela época, não era.

Quando um projeto começa a ganhar vida

O Propícia cresceu.

O centro médico transformou-se em hospital e, ao redor daquele projeto, formou-se uma estrutura da qual até hoje sentimos orgulho.

Vieram médicos extremamente competentes, profissionais de enfermagem, funcionários, colaboradores, fornecedores e pessoas que acreditaram na proposta.

Ao longo daqueles anos, mais de 80 médicos fizeram parte daquele universo profissional.

Mas talvez o que mais nos orgulhasse não fosse o tamanho alcançado.

Era a maneira como administrávamos.

Acreditávamos que um hospital precisava ser tratado simultaneamente como uma instituição de saúde e como uma organização que exigia gestão profissional.

Processos precisavam funcionar.

Recursos precisavam ser utilizados corretamente.

Médicos precisavam de condições adequadas para exercer a medicina.

Funcionários precisavam entender sua responsabilidade.

E o paciente precisava estar no centro de tudo.

Hoje, conceitos como eficiência operacional, qualidade, compliance, indicadores e gestão hospitalar fazem parte do vocabulário comum da saúde.

Naquela época, tentávamos colocar muitos desses princípios em prática simplesmente porque acreditávamos que era a maneira correta de trabalhar.

Funcionou.

E talvez tenha funcionado até demais.

O sucesso também incomoda

Existe uma parte do empreendedorismo sobre a qual pouco se escreve.

Todos gostam de falar sobre o sucesso.

Poucos falam sobre aquilo que às vezes acompanha o sucesso: resistência, inveja, concorrência desleal, interesses econômicos e, em determinados ambientes, a aproximação perigosa entre negócios, influência política e corrupção.

O Hospital Propícia começou a enfrentar dificuldades que já não se limitavam ao universo da medicina ou da administração.

Havia outros interesses em jogo.

Não pretendo, 38 anos depois, transformar esta reflexão em denúncia ou em julgamento de pessoas.

O tempo já fez parte desse trabalho.

Mas seria igualmente desonesto romantizar nossa história.

Fomos combatidos.

Fomos prejudicados.

Confiamos em pessoas que não mereciam nossa confiança.

E aprendemos uma das lições mais duras que um empreendedor pode aprender:

nem todo mundo que se aproxima de um projeto quer vê-lo crescer. Alguns querem apenas descobrir como ele funciona.

Então veio a América

Em determinado momento, nossa vida já começava a apontar para outra direção.

Viemos para os Estados Unidos.

Orlando tornou-se nossa casa.

E fizemos aquilo que muitos imigrantes conhecem muito bem, mesmo sem utilizar essa expressão:

queimamos os barcos.

Não havia um plano confortável para o retorno.

Não existia aquela possibilidade psicológica de simplesmente dizer: “Se não der certo, voltamos.”

Nossa vida estava aqui.

Enquanto reconstruíamos nossa história na América, decidimos arrendar o hospital a um grupo que assumiria sua operação.

Parecia uma solução racional.

Não foi.

Com o tempo percebemos que havia muito mais interesse no modelo, na estrutura e nos equipamentos do que propriamente na continuidade do projeto.

Os pagamentos deixaram de ser feitos.

Vieram novos problemas.

E chegou um momento em que decidimos parar.

O gigante adormecido

O prédio continua lá.

Fechado há aproximadamente 26 anos.

Imponente.

Silencioso.

E, curiosamente, ainda servindo de referência para pessoas que passam pela região.

Há algo quase simbólico nisso.

Um prédio criado para receber pessoas, médicos, enfermeiros, pacientes, ambulâncias, famílias, urgências, esperanças e notícias, permanece vazio.

Às vezes penso nele como se estivesse preso em um feitiço.

Um gigante adormecido.

As paredes continuam lá.

Os corredores continuam lá.

A estrutura continua desafiando o tempo.

Falta apenas aquilo que transforma concreto em hospital:

vida.

Durante muito tempo, olhar para essa história significava lembrar também das injustiças.

Hoje penso diferente.

Aos que construíram conosco

Depois de 38 anos, minha primeira palavra precisa ser uma só:

obrigado.

Obrigado aos médicos que acreditaram naquele projeto.

Aos profissionais de enfermagem.

Aos funcionários.

Aos colaboradores.

Aos fornecedores.

Aos amigos que estiveram próximos.

E principalmente aos milhares de pacientes e famílias que confiaram em nós em momentos em que aquilo que estava em jogo era muito maior do que qualquer negócio.

Era a saúde.

Muitas vezes, era a própria vida.

Cada atendimento realizado naquele hospital pertence a uma história que nenhuma porta fechada consegue apagar.

Cada diagnóstico correto.

Cada emergência atendida.

Cada tratamento.

Cada nascimento de esperança depois de um momento de medo.

E cada vida que, de alguma forma, ajudamos a preservar.

Isso ninguém pode confiscar.

E aos que trabalharam contra nós

Curiosamente, 38 anos depois, há também um agradecimento.

Não é um agradecimento irônico.

Um agradecimento pela compreensão que somente o tempo proporciona.

Aos concorrentes que escolheram caminhos que nós não teríamos escolhido.

Àqueles que utilizaram influência e interesses para dificultar nossa caminhada.

Àqueles em quem confiamos e que responderam com deslealdade.

Àqueles que imaginaram poderem apropriar-se de estruturas, equipamentos, conhecimento ou modelos.

Vocês também fizeram parte da nossa formação.

Porque nos obrigaram a descobrir algo que talvez nunca tivéssemos descoberto se tudo tivesse sido fácil:

podem tirar muitas coisas de uma pessoa. Mas existem algumas que ninguém consegue roubar.

Podem tomar um equipamento.

Podem ocupar um prédio.

Podem destruir uma empresa.

Podem interromper um projeto.

Podem provocar prejuízo financeiro.

Podem até conseguir fechar as portas de um hospital.

Mas não conseguem retirar de alguém aquilo que ele aprendeu ao construir tudo aquilo.

As vidas que não foram salvas

Existe, entretanto, uma reflexão que carreguei por muitos anos.

Hospitais existem para salvar vidas.

Quando um hospital fecha, não desaparece apenas uma empresa.

Desaparece um lugar onde pessoas poderiam ter sido atendidas.

Quantas?

Nunca saberemos.

Quantos pacientes poderiam ter entrado por aquelas portas nos anos seguintes?

Quantos diagnósticos poderiam ter sido realizados?

Quantas emergências poderiam ter encontrado atendimento?

Quantas vidas poderiam ter sido salvas?

Também nunca saberemos.

Durante muito tempo essa pergunta poderia produzir tristeza.

Hoje produz outra coisa.

Consciência.

Porque as vidas que ajudamos a salvar enquanto aquelas portas estiveram abertas pertencem à nossa história.

As vidas que, eventualmente, deixaram de ser atendidas porque interesses, deslealdades ou ações de terceiros contribuíram para que aquelas portas se fechassem não pertencem à nossa consciência.

Se existe karma, pertence ao karma de quem tomou essas decisões.

Nós fizemos a nossa parte.

E isso basta.

O que realmente atravessou a fronteira

Quando imigramos, não conseguimos levar nossa vida inteira nas malas.

Nenhum imigrante consegue.

Deixamos lugares.

Objetos.

Empresas.

Amigos.

Histórias.

Status.

Referências.

Às vezes deixamos até uma versão de nós mesmos.

Mas há uma bagagem que não aparece na alfândega.

Experiência.

Conhecimento.

Disciplina.

Capacidade de trabalhar.

Valores.

Erros.

Acertos.

É a certeza de que, se conseguimos construir uma vez, podemos construir novamente.

A experiência adquirida na administração daquele hospital não ficou dentro daquele prédio.

Veio conosco para os Estados Unidos.

Lilian continuou sua trajetória profissional na área da saúde, levando consigo décadas de experiência em administração, qualidade, processos e compliance.

Eu segui outros caminhos empresariais e de comunicação.

Construímos outra vida.

Outras empresas.

Outros projetos.

Outra história.

O Hospital Propícia ficou no Brasil.

Mas aquilo que o Hospital Propícia construiu em nós veio para a América.

Talvez essa seja uma das maiores lições da imigração.

O patrimônio invisível

A sociedade costuma medir patrimônio pelo que pode ser contado.

Casas.

Prédios.

Empresas.

Dinheiro.

Equipamentos.

Investimentos.

Mas existe outro patrimônio.

O patrimônio invisível.

Aquilo que aprendemos.

As pessoas que ajudamos.

A reputação que construímos.

As dificuldades às quais sobrevivemos.

A capacidade de começar novamente.

Principalmente, a consciência de quem fomos quando tivemos a oportunidade de escolher entre o caminho certo e o caminho fácil.

Esse patrimônio não aparece nos balanços.

Não pode ser hipotecado.

Não pode ser confiscado.

E também não pode ser roubado.

13 de agosto de 1988

Hoje não quero olhar para aquela data com tristeza.

Quero olhar com gratidão.

Eu era muito mais jovem.

Lilian também.

Tínhamos sonhos enormes e talvez ainda não soubéssemos o tamanho dos desafios que encontraríamos.

Construímos alguma coisa.

Funcionou.

Ajudou pessoas.

Gerou empregos.

Reuniu profissionais extraordinários.

Salvou vidas.

Depois terminou.

Ou talvez não tenha terminado.

Talvez apenas tenha mudado de forma.

Porque 38 anos depois, ainda estou escrevendo sobre ele.

O prédio continua lá, majestoso e silencioso, como testemunha de uma época.

E nós continuamos aqui.

Por isso, neste 13 de agosto, meu agradecimento vai a todos que ajudaram a construir o Hospital de Clínicas Propícia – Dra. Lilian Alevato.

Vocês fazem parte dessa história.

E para aqueles que tentaram destruí-la, não guardo mais o peso que talvez um dia tenha guardado.

A vida continuou.

Nós continuamos.

E aprendemos uma coisa que talvez somente 38 anos sejam capazes de ensinar:

podem fechar o prédio.

podem apagar as luzes.

podem trancar as portas.

Mas existem coisas que ninguém consegue roubar.

E são justamente essas que, no final, descobrimos que realmente eram nossas.

Talvez o Propícia tenha sido apenas um dos primeiros sinais

Olhando para trás, ainda há uma reflexão impossível de ignorar.

O fechamento precoce do Hospital Propícia talvez não tenha sido apenas o fim de um projeto empresarial. Pode ter sido um dos sinais de uma deterioração institucional muito maior que, nos anos seguintes, atingiria profundamente o Rio de Janeiro.

Uma cidade que já foi símbolo brasileiro de prosperidade, turismo, negócios e oportunidades assistiu ao enfraquecimento de regiões comerciais, ao fechamento ou ao esvaziamento de empreendimentos, à decadência de áreas antes valorizadas e à saída de empresas e de investimentos. Até grandes centros comerciais e shoppings que pareciam indestrutíveis passaram a enfrentar os efeitos dessa transformação.

Na saúde, também vimos instituições desaparecerem, mudarem de mãos ou acumularem enormes dificuldades financeiras.

O tempo produz algumas ironias.

Empresas e pessoas que, naquele período, escolheram a concorrência desleal, contribuíram para nos prejudicar ou imaginaram estar conquistando alguma vantagem permanente também enfrentaram, posteriormente, suas próprias dificuldades. Algumas instituições deixaram de existir; outras passaram a conviver com níveis impressionantes de endividamento e problemas operacionais.

Não existe satisfação nisso.

Existe apenas uma constatação.

Quando um ambiente começa a premiar influência em lugar de competência, esperteza em lugar de eficiência e relações de poder em lugar de mérito, ninguém vence de verdade.

Talvez o Propícia tenha fechado cedo demais.

Ou talvez tenha sido cedo demais apenas para percebermos que aquele fechamento era um pequeno sinal de uma falência institucional muito maior que ainda estava por vir.

Um dia, essa história será contada por inteiro

Existem muitos detalhes que, deliberadamente, não fazem parte deste artigo.

Guardo nomes, datas, documentos e registros que sustentam o que vivi e a interpretação que construí desses acontecimentos. Não preciso apresentá-los hoje. Trinta e oito anos me ensinaram que algumas verdades não precisam de pressa.

Mas acredito que chegará o momento de organizar tudo.

Os personagens terão nomes. Os fatos terão datas. Os documentos encontrarão seus lugares. As decisões, coincidências, interesses e consequências poderão ser apresentados para que cada leitor tire suas próprias conclusões.

Talvez essa história mereça um livro.

Não é um livro de vingança, mas de memória.

Um belo livro sobre sonhos, medicina, empreendedorismo, poder, política, corrupção, imigração, perdas e recomeços.

E, quando esse dia chegar, a história do Hospital Propícia poderá finalmente ser contada por inteiro.

@marcoalevato

@facebrasil

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