A eleição acabou. E agora?
Marco Alevato
Editor

Como fica a vida de quem mora nos Estados Unidos?
Lula venceu, mas as perguntas continuam na mesa das famílias brasileiras. Entre o dólar, a imigração e as diferenças políticas, existe um futuro que precisamos aprender a construir juntos.
O resultado sai no celular. No grupo da família, chegam os primeiros comentários. Alguém comemora, outro manda uma mensagem indignada, um terceiro pede para ninguém discutir. Em uma casa brasileira nos Estados Unidos, a eleição no Brasil parece acontecer logo ali, entre o café e o jantar.
Na manhã seguinte, porém, o despertador toca no mesmo horário. É preciso trabalhar, levar os filhos à escola, atender clientes e pagar as contas. A vida segue em dólar, enquanto uma parte das preocupações continua em reais.
É nesse encontro entre dois países que a vitória de Lula ganha um significado especial para quem vive fora. Afinal, o que muda para nós? O dinheiro enviado à família vai render mais? As relações com os americanos podem piorar? E será que vamos conseguir conversar sobre o Brasil sem transformar cada encontro em uma disputa?
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Lula foi reeleito em 25 de outubro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O resultado definiu o vencedor e mostrou o tamanho do desafio: governar um país em que milhões de pessoas escolheram outro caminho.
Para quem comemorou, começa o tempo de acompanhar as promessas. Para quem se decepcionou, permanece o direito de fiscalizar, criticar e propor alternativas. Em ambos os casos, o Brasil real continua precisando de respostas.
O Brasil que levamos na mala
Quem imigra aprende a viver com duas referências. Olha a previsão do tempo na cidade americana e pergunta se está chovendo onde os pais moram. Organiza as despesas daqui e ajuda a resolver uma emergência lá. Faz planos em inglês, mas ainda sente muita coisa em português.
Por isso, a política brasileira continua tão presente. Ela toca na aposentadoria dos pais, no emprego dos irmãos, no imóvel que ficou para trás e até naquela pergunta que aparece de vez em quando: “Será que um dia eu volto?”
Alguns recebem a vitória de Lula com esperança de mais proteção social e oportunidades. Outros temem decisões econômicas que possam dificultar a vida de suas famílias ou de seus negócios. Há também quem esteja cansado da discussão e queira apenas alguma tranquilidade.
Esses sentimentos merecem espaço. Mas sentimento e previsão são coisas diferentes. O medo não comprova que tudo dará errado, assim como a comemoração não garante que tudo dará certo. Entre uma eleição e seus resultados na vida das pessoas, há decisões, negociações e muito trabalho.
E a nossa situação nos Estados Unidos?
Essa talvez seja a preocupação mais sensível. Basta surgir um atrito entre Brasília e Washington para aparecerem mensagens sobre vistos, deportações e supostas facilidades para brasileiros.
O ponto de partida é simples: a vitória de Lula, por si só, não altera o status migratório de quem está nos EUA. As regras de vistos e entrada no país são estabelecidas pela legislação americana e aplicadas pelas autoridades daqui. Uma eleição no Brasil não produz automaticamente uma nova regra de imigração nos Estados Unidos.
A relação entre os governos importa, claro. Pode influenciar conversas sobre documentação, cooperação e atendimento aos cidadãos. Mas, para afetar um procedimento, uma conversa precisa resultar em uma decisão concreta.
Para quem tem um processo em andamento, isso significa acompanhar as informações oficiais e buscar orientação sobre o próprio caso. O áudio alarmista que chega pelo WhatsApp não conhece a sua história, os seus documentos nem a categoria do seu pedido.
A ansiedade do imigrante já é grande demais para ser alimentada por rumores.
Lula e Trump precisam encontrar espaço para conversar
A relação entre os dois países merece atenção. Depois da eleição, Trump questionou o processo brasileiro, sem apresentar evidências de fraude, segundo a cobertura da Agência Brasil. No mesmo relato, o vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a continuidade das negociações comerciais com os Estados Unidos. O episódio mostra um cenário de divergências, mas também a necessidade de manter canais abertos.
Para os brasileiros que vivem aqui, a expectativa mais produtiva é que essas diferenças sejam tratadas com responsabilidade. Uma discussão entre presidentes pode render manchetes. Uma negociação bem conduzida pode preservar negócios, empregos e oportunidades.
Há interesses suficientes para justificar esse esforço. O comércio de bens e serviços entre Brasil e Estados Unidos chegou a aproximadamente US$135,7 bilhões em 2025, segundo o órgão americano responsável pela política comercial. Por trás desse número estão empresas, contratos e pessoas que precisam de alguma previsibilidade para trabalhar.
Os presidentes não precisam concordar em tudo para negociar. Precisam compreender o custo de deixar que as divergências ocupem todo o espaço da relação.
Para a nossa comunidade, boas relações entre os países representam uma ponte que vale a pena preservar.
O dólar chega antes à conversa
Poucos assuntos traduzem tão rapidamente a política para a rotina de uma família quanto o câmbio.
Quem manda dinheiro para ajudar os pais percebe que a mesma quantia compra mais reais. Quem espera a visita de um irmão percebe quando a passagem e os gastos nos EUA ficam pesados demais. Quem atende turistas brasileiros sente quando o cliente começa a cortar despesas.
O mesmo movimento pode ajudar uma pessoa e apertar o orçamento de outra. Um dólar mais valorizado aumenta a quantidade de reais recebida em uma remessa, antes dos custos da operação. Ao mesmo tempo, torna a viagem mais cara para quem ganha em moeda brasileira.
Por isso, precisamos resistir à tentação de anunciar um destino para o dólar a cada notícia política. Juros, inflação, contas públicas e acontecimentos internacionais também entram nessa conta. O resultado eleitoral é parte da história.
O olhar construtivo começa justamente aí: trocar o impulso pela avaliação. Antes de mudar um plano de vida, convém observar o que efetivamente mudou nas condições desse plano.
Para quem empreende, atenção vale mais que torcida
Na comunidade brasileira, há quem abra a loja cedo, faça entregas, cuide de uma equipe ou trabalhe sozinho para conquistar o próximo cliente. Para esse empreendedor, a política ganha importância quando chega ao custo do produto e ao fluxo de caixa.
Uma empresa que depende de visitantes do Brasil pode sentir mudanças no turismo. Um comércio que compra mercadorias brasileiras precisa acompanhar fretes, tarifas e fornecedores. Já um negócio voltado principalmente ao público local pode estar mais exposto às condições econômicas da própria cidade americana.
São situações diferentes. Colocar todas sob a mesma previsão pode levar a decisões ruins.
A melhor pergunta é específica: “Onde esse cenário toca a minha empresa?” A resposta pode indicar a necessidade de buscar outro fornecedor, ampliar o público atendido ou ajustar um investimento. Pode também mostrar que não há motivo para mudar de rumo naquele momento.
Cautela não exige paralisia. E confiança não dispensa planejamento.
Dois grandes times, uma comunidade só
Talvez o efeito mais próximo da eleição esteja na maneira como vamos tratar uns aos outros.
Em algumas conversas, a política ganhou o comportamento de uma rivalidade de futebol. Cada lado veste sua camisa, defende o próprio time e espera o tropeço do adversário. Um erro do nosso candidato ganha explicação; um erro do outro vira prova definitiva de que ele nunca prestou.
A comparação ajuda a enxergar uma armadilha: quando a fidelidade ao grupo fica acima da avaliação dos fatos, perdemos a capacidade de escolher melhor.
No futebol, podemos passar a vida defendendo as mesmas cores. Na política, precisamos ter liberdade para rever opiniões. Um governante pode acertar hoje e errar amanhã. Um eleitor pode apoiar uma proposta e rejeitar outra, mesmo quando ambas vêm do partido em que votou.
Isso é independência de pensamento. É o que permite cobrar de quem recebeu o nosso voto com a mesma seriedade com que cobramos de quem não recebeu.
Também precisamos abandonar a ideia de que desejar o fracasso de um governo ajuda o país. Se uma decisão piora a vida das pessoas, seus efeitos não param na porta de quem votou a favor dela.
Há pais, filhos, trabalhadores e empresários dos dois lados.
Escolher melhor começa na próxima conversa
Uma postura construtiva não pede silêncio nem concordância forçada. Pede disposição para fazer perguntas melhores.
Qual problema essa proposta resolve? Quem será beneficiado? Quanto custa? Existe uma alternativa mais eficiente? Que informação me faria reconsiderar minha opinião?
Essas perguntas dão mais trabalho do que compartilhar uma provocação. Mas ajudam a sair do círculo em que todo mundo fala e quase ninguém escuta.
Na comunidade imigrante, esse cuidado tem valor especial. O vizinho que votou diferente pode ser quem ajuda em uma emergência. O cliente com outra opinião política pode sustentar uma parceria por anos. Um familiar não deixa de fazer parte da nossa história porque interpretou o Brasil de outra maneira.
Podemos discutir com firmeza e preservar essas relações. Podemos reconhecer um resultado sem abrir mão da fiscalização. Podemos comemorar uma vitória e continuar exigentes.
Lula terá de responder pelo governo que vier a fazer. Aos brasileiros, aqui e lá, cabe acompanhar, participar e cobrar. Nossa responsabilidade começa também nas pequenas escolhas: o que compartilhamos, como argumentamos e que espaço damos a uma ideia diferente.
A eleição terminou. Amanhã, muitos de nós estaremos novamente trabalhando, cuidando da família e tentando avançar um pouco. Merecemos uma conversa política que ajude a construir essa vida.
Participe: O que você espera dos próximos anos para o Brasil e para os brasileiros que vivem nos Estados Unidos? Vamos conversar com respeito e espaço para ideias diferentes.@marcoalevato
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