Do Brasil ao poder: a nova voz brasileira na política americana
Marco Alevato
Editor

Da condição de imigrante sem documentos a uma cadeira no Legislativo da Flórida, a eleição de Felipe Sousa-Lazaballet revela uma transformação importante: brasileiros que chegaram aos Estados Unidos em busca de oportunidades começam a conquistar também espaços de representação política.
Por Redação Facebrasil | 6 de novembro de 2026
Durante décadas, a história dos brasileiros nos Estados Unidos foi contada principalmente por meio do trabalho, do empreendedorismo e da capacidade de recomeçar. Foram gerações construindo negócios, criando famílias, enfrentando dificuldades migratórias e contribuindo silenciosamente para a economia americana.
Mas uma nova página começa a ser escrita. E, desta vez, não apenas nas empresas, nas universidades ou nas comunidades religiosas. Ela também está sendo escrita nos corredores do poder político.
No dia 3 de novembro de 2026, Felipe Sousa-Lazaballet, brasileiro nascido em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, foi eleito para a Câmara dos Representantes da Flórida, pelo Distrito 42, na região de Orlando. Aos 40 anos, tornou-se o primeiro brasileiro eleito para o Legislativo estadual da Flórida.
A vitória, com 49.752 votos, aproximadamente 62,4% dos votos registrados na disputa, representa um marco na presença política de brasileiros no estado.
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Entretanto, o significado dessa eleição ultrapassa a trajetória de um candidato ou o resultado de uma disputa partidária. Ela levanta uma questão que merece ser discutida por toda a comunidade: estamos deixando de ser apenas participantes da economia americana para nos tornarmos também participantes de suas decisões?
De Duque de Caxias ao Capitólio da Flórida
A história de Felipe Sousa-Lazaballet reúne elementos familiares a milhares de brasileiros que fizeram dos Estados Unidos seu novo lar.
Ele chegou ao país aos 14 anos, acompanhado da família, e viveu por aproximadamente 15 anos sem documentação migratória regular. Durante esse período, enfrentou limitações que muitos imigrantes conhecem: dificuldades para trabalhar legalmente, incertezas sobre o futuro e obstáculos para construir uma vida estável.
Sua trajetória, porém, tomou um caminho que poucos imaginariam.
Felipe participou de movimentos em defesa dos jovens imigrantes conhecidos como Dreamers, incluindo uma marcha de aproximadamente 1.500 quilômetros até Washington, em 2010. Posteriormente, foi beneficiado pelo DACA, programa federal que oferece proteção temporária contra deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram ainda crianças.
Em 2021, conquistou a cidadania americana. Cinco anos depois, venceu sua primeira eleição para o Legislativo estadual.
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Sua história demonstra como a experiência migratória pode se transformar em participação cívica. Não significa que todos os imigrantes percorrerão o mesmo caminho, nem que as dificuldades deixaram de existir. Significa que, para aqueles que atendem aos requisitos legais necessários, há possibilidades de participação que vão além da vida profissional.
A comunidade brasileira cresceu. Sua representação acompanhou esse crescimento?
Quem vive na Flórida há muitos anos testemunhou uma transformação impressionante.
Onde antes existiam pequenos grupos de brasileiros tentando encontrar produtos familiares, serviços em português ou oportunidades de trabalho, hoje encontramos empresas consolidadas, profissionais especializados, escolas, restaurantes, igrejas, organizações comunitárias e uma estrutura econômica que movimenta diferentes setores.
Os números ajudam a compreender essa dimensão.
Segundo estimativas do Itamaraty referentes a 2025, aproximadamente 220 mil brasileiros vivem na área de jurisdição do Consulado-Geral do Brasil em Orlando, que abrange diferentes regiões da Flórida. Já os dados do Censo americano apontam cerca de 39,6 mil residentes nascidos no Brasil na região metropolitana de Orlando, Kissimmee e Sanford. As duas estimativas utilizam metodologias e áreas geográficas distintas e, portanto, não são diretamente comparáveis.
A comunidade cresceu economicamente, ampliou sua presença cultural e fortaleceu suas instituições. Mas a participação política ainda é um campo em desenvolvimento.
Isso não significa ausência de interesse. Muitos brasileiros acompanham de perto a política americana, discutem eleições e se preocupam com decisões sobre imigração, impostos, educação, saúde e segurança.
O desafio é transformar esse interesse em conhecimento sobre as instituições e em participação cívica contínua.
Afinal, uma comunidade pode representar uma força econômica significativa e, ainda assim, ter pouca influência organizada sobre decisões que afetam seu cotidiano.
Não foi apenas na Flórida: outros brasileiros também chegaram às urnas
A eleição de Felipe não aconteceu isoladamente.
Nas eleições de novembro de 2026, outros brasileiros conquistaram ou renovaram mandatos legislativos estaduais.
Em Massachusetts, Priscila Sousa, Rita Mendes e Danillo Sena foram reeleitos. Lorena Betts também conquistou uma cadeira. Em Connecticut, Farley Santos foi reeleito, enquanto Elaine Marzola manteve seu mandato em Nevada.
Ao todo, reportagens publicadas após a apuração identificaram sete brasileiros eleitos ou reeleitos para cargos legislativos em diferentes estados, todos pelo Partido Democrata.
O dado chama atenção por revelar uma presença política que não se limita mais a um único estado ou a uma única trajetória pessoal.
É importante observar, contudo, que essas vitórias não significam que a comunidade brasileira compartilhe uma mesma orientação partidária. Brasileiros nos Estados Unidos possuem diferentes opiniões políticas, condições econômicas, experiências migratórias e prioridades.
Representatividade de origem e representatividade de ideias não são necessariamente a mesma coisa.
Um candidato brasileiro pode conhecer profundamente os desafios da imigração, mas sua atuação precisa ser avaliada também pelas propostas, pelos votos, pela capacidade de diálogo e pelos resultados de seu mandato.
Essa distinção é essencial para o amadurecimento político de qualquer comunidade.
Entre a política brasileira e a realidade americana
Existe uma característica interessante na comunidade brasileira: mesmo depois de muitos anos vivendo nos Estados Unidos, grande parte continua emocionalmente conectada à política do Brasil.
As eleições brasileiras movimentam conversas familiares, grupos de WhatsApp, redes sociais e encontros comunitários. As divergências entre direita e esquerda frequentemente atravessam fronteiras e continuam presentes na vida dos imigrantes.
Entretanto, enquanto discutimos intensamente o que acontece em Brasília, decisões tomadas em Tallahassee, capital da Flórida, ou em Washington podem produzir consequências muito mais imediatas sobre nossa rotina.
São decisões relacionadas a impostos estaduais, legislação trabalhista, educação pública, regulamentação empresarial, segurança, moradia e políticas migratórias, respeitadas as competências de cada esfera de governo.
A eleição de um brasileiro para o Legislativo da Flórida oferece uma oportunidade de reflexão: quanto realmente conhecemos sobre o funcionamento político do país onde escolhemos construir nossas vidas?
Conhecer a política americana não exige abandonar o interesse pelo Brasil. Pelo contrário, significa compreender que pertencemos a duas realidades que, embora diferentes, influenciam nosso presente e nosso futuro.
Participação política começa muito antes do voto
Uma das maiores confusões quando se discute participação política entre imigrantes é acreditar que tudo começa e termina nas eleições.
Nos Estados Unidos, votar em eleições federais e estaduais é um direito reservado aos cidadãos americanos que atendem aos requisitos legais. Residentes permanentes e imigrantes com outros status migratórios não podem votar nessas eleições.
Mas a participação cívica é muito mais ampla.
Acompanhar reuniões públicas, conhecer representantes, participar de associações comunitárias, apresentar demandas a autoridades, contribuir para debates sobre políticas públicas e organizar iniciativas locais são formas de envolvimento que, observadas as regras aplicáveis, não dependem necessariamente da cidadania americana.
Para empresários brasileiros, por exemplo, compreender decisões sobre licenciamento comercial, zoneamento, desenvolvimento urbano e regulamentações locais pode ser tão importante quanto acompanhar os indicadores econômicos.
Para as famílias, conhecer o funcionamento dos conselhos escolares e das administrações municipais pode fazer diferença na maneira como acompanham a educação dos filhos.
E para organizações comunitárias, construir canais de comunicação com autoridades permite apresentar necessidades concretas, sem depender exclusivamente de manifestações nas redes sociais.
A participação política começa quando uma comunidade compreende que suas preocupações também fazem parte da agenda pública.
O desafio de representar uma comunidade diversa
A eleição de Felipe Sousa-Lazaballet também coloca em evidência uma questão importante: o que esperamos de um representante político de origem brasileira?
Durante sua campanha, o democrata destacou temas relacionados à inclusão, às oportunidades econômicas e às condições de vida das famílias. Sua trajetória na defesa dos imigrantes e dos direitos civis também integra sua identidade pública.
Essas posições fazem parte de sua plataforma política, mas não representam necessariamente todas as prioridades dos brasileiros que vivem na Flórida.
A comunidade reúne empresários e empregados, conservadores e progressistas, cidadãos americanos e residentes permanentes, imigrantes recém-chegados e famílias estabelecidas há décadas.
Há quem considere a imigração sua principal preocupação. Outros priorizam segurança, impostos, custo de vida, liberdade econômica ou educação.
Por isso, a origem brasileira de um representante pode criar identificação cultural, mas não substitui o debate sobre suas propostas e decisões.
O verdadeiro significado da representatividade também está na possibilidade de ampliar o diálogo entre diferentes setores da sociedade.
Além disso, Felipe foi eleito para representar todos os moradores de seu distrito, independentemente de nacionalidade ou origem. Seu mandato não é uma representação exclusiva da comunidade brasileira.
Essa compreensão ajuda a evitar expectativas equivocadas e permite acompanhar sua atuação com critérios mais objetivos.
O amadurecimento de uma comunidade que aprendeu a construir
Talvez o aspecto mais interessante dessa transformação seja perceber como a experiência brasileira nos Estados Unidos evoluiu ao longo das gerações.
A primeira preocupação de muitos imigrantes é sobreviver economicamente. Encontrar trabalho, aprender o idioma, conquistar estabilidade e oferecer melhores condições de vida à família.
Depois vêm os negócios, a compra da casa, a formação profissional e a educação dos filhos.
Com o passar do tempo, surgem outras perguntas.
Quem participa das decisões sobre nossa cidade? Quem compreende os desafios de nossos pequenos negócios? Como nossas comunidades podem contribuir para melhorar escolas, bairros e serviços públicos?
Essas perguntas indicam uma mudança de perspectiva.
Não se trata apenas de viver nos Estados Unidos, mas de compreender o funcionamento da sociedade e participar de sua construção.
E isso exige algo que nem sempre acompanha o crescimento econômico: organização comunitária, educação cívica, disposição para o diálogo e respeito às diferenças.
Uma comunidade madura não precisa pensar da mesma maneira. Precisa aprender a discutir suas diferenças sem transformar cada divergência em uma divisão permanente.
A próxima geração poderá ir ainda mais longe?
Existe outro aspecto dessa história que merece atenção: os filhos e netos dos imigrantes brasileiros.
Muitos nasceram nos Estados Unidos, estudam em escolas americanas, dominam o inglês e convivem naturalmente com duas culturas.
Para essa geração, o acesso às instituições americanas pode representar um caminho diferente daquele percorrido por seus pais.
Alguns poderão escolher carreiras no serviço público, no Direito, na administração governamental ou na política. Outros poderão contribuir por meio de organizações sociais, universidades e associações profissionais.
Não existe obrigação de seguir uma carreira política. Mas é importante que essas possibilidades sejam conhecidas.
Durante muito tempo, o sonho de muitos pais brasileiros foi ver seus filhos conquistando diplomas, empresas e estabilidade financeira.
Talvez, nas próximas décadas, também vejamos com maior frequência brasileiros e descendentes ocupando posições de liderança nas instituições públicas americanas.
Não como resultado automático do crescimento da comunidade, mas como consequência da educação, da participação e das oportunidades.
Mais do que conquistar espaço, aprender a ocupá-lo
A eleição de Felipe Sousa-Lazaballet é um acontecimento histórico para os brasileiros da Flórida, independentemente das preferências partidárias de cada leitor.
Sua trajetória demonstra uma mudança concreta: alguém que chegou ao país ainda adolescente, enfrentou dificuldades migratórias e, posteriormente, conquistou a cidadania, passou a integrar uma instituição responsável pela elaboração das leis estaduais.
O significado desse acontecimento, porém, não deve ser confundido com uma avaliação antecipada de seu mandato.
A partir de agora, suas propostas, seus votos e sua atuação legislativa poderão ser acompanhados e debatidos publicamente.
Esse acompanhamento é parte fundamental da democracia.
Para a comunidade brasileira, a oportunidade está em compreender que participação política não se resume a comemorar a vitória de alguém com nossas origens.
Envolve conhecer instituições, formular perguntas, acompanhar decisões, respeitar divergências e compreender como as políticas públicas afetam nossas vidas.
Reflexão Facebrasil | De imigrantes a protagonistas
Há uma diferença importante entre morar em um país e sentir-se parte de sua construção.
Durante décadas, os brasileiros ajudaram a impulsionar a economia americana com seu trabalho, suas empresas, sua criatividade e sua capacidade de adaptação.
Agora, algumas dessas histórias começam a chegar também às instituições políticas.
Mas talvez a pergunta mais relevante não seja quantos brasileiros conseguirão conquistar mandatos nos próximos anos.
A pergunta é outra:
Estamos preparando nossa comunidade para compreender, participar e contribuir com as decisões que definirão o futuro de nossos filhos e netos?
Porque o amadurecimento de uma comunidade não se mede apenas pelo número de empresas que abrem, pelos imóveis que compram ou pela riqueza que produzem.
Também se revela na capacidade de dialogar, organizar-se e participar da sociedade da qual faz parte.
O brasileiro já demonstrou que sabe trabalhar, empreender e reconstruir sua vida longe de casa.
O próximo capítulo dessa história poderá ser escrito também na vida pública americana.
E, independentemente de partidos ou ideologias, conhecer esse processo é uma oportunidade para todos nós.
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E você, o que pensa?
A comunidade brasileira nos Estados Unidos deveria participar mais das decisões políticas locais? Você conhece seus representantes municipais, estaduais e federais?
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