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Ilusão da escolha: Spinoza e o impactante debate sobre o livre-arbítrio

Marco Alevato

Editor

Vou escolher o 17”: Spinoza, o livre-arbítrio e a inquietante dúvida sobre quem realmente escolhe

Você acredita que escolhe livremente? Spinoza provavelmente responderia que essa certeza é justamente uma das maiores ilusões humanas. Para o imigrante que construiu sua história a partir de decisões aparentemente radicais, a pergunta torna-se ainda mais desconfortável: quanto daquilo que chamamos de escolha realmente nasceu de nós?

Faça uma experiência simples.

Peça a uma pessoa que escolha rapidamente um número entre 1 e 30.

Ou faça a mesma pergunta a uma inteligência artificial.

Há uma boa chance de o 17 aparecer.

Não significa que toda inteligência artificial necessariamente escolherá 17. Diferentes modelos, contextos e configurações podem produzir números distintos. Mas o exemplo é provocador justamente porque nos leva a uma pergunta muito maior.

Por que aquele número?

A resposta aparentemente mais simples seria:

“Porque eu escolhi.”

Será?

Talvez seja exatamente aqui que Baruch Spinoza, filósofo do século XVII e um dos pensadores mais inquietantes da história ocidental, tenha algo importante para dizer ao brasileiro que decidiu deixar seu país, atravessar fronteiras e reconstruir a própria vida nos Estados Unidos.

Porque Spinoza nos obriga a enfrentar uma possibilidade desconfortável:

Talvez sejamos muito menos livres do que imaginamos.

O que chamamos de livre-arbítrio

Livre-arbítrio costuma ser entendido como a capacidade de um indivíduo fazer escolhas de maneira independente, sem que suas decisões sejam completamente determinadas por acontecimentos anteriores, condições externas ou por algum destino previamente estabelecido.

Parece óbvio.

Você escolheu sua profissão.

Escolheu seu marido ou sua esposa.

Escolheu abrir uma empresa.

Escolheu mudar para os Estados Unidos.

Escolheu comprar aquela casa.

Escolheu votar naquele candidato.

Escolheu aquele restaurante.

Escolheu o prato.

Escolheu continuar lendo este artigo.

Mas Spinoza provavelmente perguntaria:

Você conhece todas as causas que levaram você a tomar cada uma dessas decisões?

E é justamente aí que nossa certeza começa a ficar menos confortável.

Spinoza e a grande ilusão humana

Baruch Spinoza nasceu em Amsterdã, em 1632, em uma família judaico-portuguesa. Seus antepassados estavam ligados à diáspora sefardita que deixou a Península Ibérica em consequência das perseguições religiosas.

Existe, portanto, algo particularmente interessante em trazer Spinoza para uma publicação dirigida a imigrantes.

Ele próprio nasceu nas consequências históricas do deslocamento, da perseguição, da adaptação cultural e da reconstrução de identidade.

Sua filosofia romperia profundamente com algumas concepções tradicionais de Deus, da natureza, da liberdade e da vontade humana.

Para Spinoza, tudo possui uma causa.

Nossos desejos também.

O problema é que, normalmente, conhecemos nossos desejos, mas desconhecemos as causas que os produziram.

Sentimos vontade de alguma coisa e concluímos:

“Eu quis.”

Spinoza nos convida a acrescentar outra pergunta:

“Por que eu quis?”

E depois outra:

“Por que eu quis isso?”

É aí que a brincadeira começa a ficar séria.

Vou escolher o 17

Imagine que eu diga:

“Escolha qualquer número entre 1 e 30.”

Você escolhe 17.

A sensação interna é perfeita.

Ninguém segurou sua mão.

Ninguém ameaçou você.

Nenhuma lei determinou sua escolha.

Você poderia ter escolhido 4, 11, 22 ou 29.

Portanto, aparentemente, você foi livre.

Mas será que foi?

Talvez você tenha evitado números muito baixos porque pareciam óbvios.

Talvez tenha evitado 10, 20 e 30 porque parecem redondos demais.

Talvez tenha preferido um número ímpar.

Talvez algum acontecimento anterior tenha criado uma associação inconsciente com o número 17.

Talvez você tenha visto esse número minutos antes sem perceber.

Talvez existam padrões culturais, cognitivos ou estatísticos que influenciem sua escolha.

Você conhece o resultado da decisão.

Mas provavelmente não conhece todas as causas dela.

Esse é o ponto.

A questão filosófica não está no número 17.

Está na origem invisível da escolha.

Agora coloque um algoritmo nessa história

A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais fascinante.

Quando perguntamos a uma IA:

“Escolha um número entre 1 e 30”,

E ela responde:

“17”,

Somos imediatamente tentados a dizer que aquilo não foi uma escolha verdadeira.

Afinal, sabemos que há treinamento, probabilidade, contexto, arquitetura computacional e padrões linguísticos por trás daquela resposta.

Existe uma cadeia causal.

Então fazemos uma separação confortável:

A máquina calcula. O ser humano escolhe.

Mas Spinoza poderia destruir essa tranquilidade com apenas uma pergunta:

E se nós também estivermos respondendo a cadeias causais que simplesmente não conseguimos enxergar?

A IA possui treinamento.

Nós possuímos infância.

Ela possui dados.

Nós possuímos memória.

Ela possui parâmetros.

Nós possuímos educação, cultura, traumas, experiências, recompensas, medos, desejos e condicionamentos.

Ela recebe um contexto.

Nós também.

Talvez a grande diferença seja que conseguimos observar parte das causas que influenciam uma máquina, enquanto temos enorme dificuldade em observar as causas que nos influenciam.

O imigrante acredita profundamente na escolha

Poucas pessoas possuem uma narrativa de livre-arbítrio tão poderosa quanto o imigrante.

Nós dizemos:

“Eu escolhi vir para os Estados Unidos.”

E provavelmente escolhemos.

Mas Spinoza perguntaria novamente:

o que produziu essa escolha?

Ambição?

Medo?

Violência?

Inflação?

Falta de oportunidades?

Desejo de segurança?

Sonho americano?

Influência de amigos?

Uma viagem anterior?

Uma propaganda?

Uma história de sucesso que ouvimos?

Insatisfação profissional?

Desejo oferecer uma vida diferente aos filhos?

Talvez tudo isso junto.

Então surge uma questão extraordinária:

Quando decidimos emigrar, fomos completamente livres ou respondemos a uma combinação gigantesca de causas anteriores?

Isso não diminui a coragem do imigrante.

Pelo contrário.

Ajuda a compreender sua trajetória.

Você mudou de país. Mas seus padrões vieram na mala.

Observo algo com frequência na comunidade brasileira nos Estados Unidos.

Pessoas percorrem milhares de quilômetros, abandonam cidades, profissões, empresas e círculos sociais.

Mudam de idioma.

Mudam de moeda.

Mudam a legislação.

Mudam de endereço.

Mas continuam tomando decisões utilizando exatamente os mesmos padrões mentais que trouxeram do Brasil.

O empresário brasileiro abre uma empresa americana com a lógica empresarial brasileira.

O consumidor chega aos Estados Unidos e continua a associar status a determinados símbolos.

O profissional interpreta relações de trabalho americanas com base em referências culturais brasileiras.

Pais reproduzem modelos educacionais recebidos décadas atrás.

Pessoas que juraram jamais repetir determinados comportamentos familiares acabam reproduzindo exatamente esses comportamentos.

E novamente acreditamos:

“Eu escolhi.”

Talvez.

Mas talvez uma parte importante daquilo que chamamos de escolha seja apenas repetição sofisticada.

O passado continua votando nas nossas decisões

Quando você entra em uma loja e escolhe uma determinada marca, quem escolheu?

Você?

Sua infância?

A propaganda?

Seu grupo social?

Seu desejo de reconhecimento?

Quando você evita determinada oportunidade profissional porque considera que “não é para você”, quem decidiu isso?

Você?

Ou alguém impôs esse limite dentro de você décadas atrás?

Quando um imigrante acredita que precisa demonstrar sucesso comprando aquilo que ainda não poderia comprar, essa é uma decisão econômica racional?

Ou existe uma necessidade prévia de validação?

Quando permanecemos em uma situação ruim por medo de recomeçar, estamos exercendo liberdade?

Ou obedecendo ao medo?

Talvez sejamos livres.

Mas talvez nossa liberdade seja muito menor enquanto desconhecemos aquilo que nos determina.

Aqui Spinoza fica ainda mais interessante

Seria fácil interpretar essa filosofia como uma mensagem pessimista.

Se tudo tem causas, então somos marionetes?

Não exatamente.

A força da filosofia de Spinoza está justamente em transformar conhecimento em uma forma mais elevada de liberdade.

Quanto melhor compreendemos as causas de nossos desejos, emoções e comportamentos, menos somos simplesmente arrastados por eles.

Isso muda completamente a discussão.

Liberdade deixa de significar:

“Faço qualquer coisa que quero.”

E passa a se aproximar de:

“Compreendo melhor por que quero aquilo que quero.”

Essa diferença é gigantesca.

Talvez liberdade seja consciência

Imagine alguém que sempre reage agressivamente quando é contrariado.

Ele afirma:

“Eu sou assim.”

Essa frase parece afirmar identidade.

Na realidade, pode disfarçar a falta de compreensão.

Por que reage assim?

Quando começou?

Qual medo existe por trás da reação?

Que experiência anterior ensinou aquele comportamento?

Quando essa pessoa começa a compreender as causas, algo novo surge.

Uma possibilidade de agir de forma diferente.

Talvez essa seja uma das interpretações mais poderosas que podemos extrair de Spinoza para nossa vida cotidiana:

Quanto menos compreendemos aquilo que nos move, mais acreditamos que somos livres justamente quando estamos sendo conduzidos.

O algoritmo humano

Vivemos preocupados com algoritmos.

O algoritmo escolhe o que aparece nas redes sociais.

O algoritmo sugere aquilo que devemos comprar.

O algoritmo recomenda o próximo vídeo.

O algoritmo determina anúncios.

O algoritmo aprende nossos hábitos.

Mas existe outro algoritmo, muito mais antigo, que funciona dentro de nós.

Família.

Educação.

Cultura.

Religião.

Experiência.

Fracasso.

Sucesso.

Medo.

Recompensa.

Vergonha.

Desejo.

Status.

Pertencimento.

Tudo isso participa silenciosamente de nossas decisões.

E talvez seja por isso que o pensamento de um filósofo nascido em 1632 pareça tão contemporâneo em 2026.

Nunca tivemos tantas ferramentas tentando prever nossas escolhas.

E talvez nunca tenha sido tão importante compreender como nossas escolhas se formam.

Para o imigrante, essa pergunta vale ouro

A imigração oferece algo extraordinário: uma ruptura.

Quando mudamos de país, muitos dos elementos que sustentavam nossa identidade desaparecem.

O sobrenome pode perder importância.

O diploma pode precisar ser revalidado.

A profissão pode mudar.

A posição social pode desaparecer.

O idioma nos coloca novamente na posição de aprendizes.

O dinheiro muda de valor.

As relações mudam.

As regras mudam.

Isso pode ser doloroso.

Mas também oferece uma oportunidade raríssima:

Examinar quem somos sem algumas das estruturas que nos diziam quem deveríamos ser.

Talvez emigrar seja uma das maiores oportunidades para questionar nossos próprios condicionamentos.

Não apenas reconstruir a vida.

Mas reconstruir o pensamento.

Então você realmente escolheu?

Chegamos à pergunta inevitável.

Você escolheu estar nos Estados Unidos?

Provavelmente sim.

Mas sua escolha nasceu de centenas ou de milhares de acontecimentos anteriores.

Você escolheu sua profissão?

Talvez.

Mas havia uma história antes dela.

Você escolheu seus sonhos?

Essa pergunta já é mais difícil.

Você escolheu aquilo que considera sucesso?

Mais difícil ainda.

Você escolheu aquilo que deseja?

Agora entramos definitivamente no território de Spinoza.

Porque talvez possamos escolher entre diferentes possibilidades.

Mas não escolhemos livremente todas as forças que moldaram a pessoa que fará essa escolha.

Antes da próxima decisão, faça uma pergunta

Não precisamos abandonar a ideia de responsabilidade.

Muito menos, utilizar o determinismo como desculpa para nossos erros.

A proposta é justamente o contrário.

Precisamos ampliar nossa consciência sobre o que nos determina.

Na próxima decisão importante, experimente não perguntar apenas:

“O que eu quero?”

Pergunte também:

“Por que eu quero isso?”

Depois vá mais fundo:

“De onde veio esse desejo?”

E talvez mais fundo ainda:

“Se minha história tivesse sido diferente, eu teria escolhido a mesma coisa?”

Não existem respostas simples.

E talvez seja exatamente esse o valor da pergunta.

Afinal, quem escolheu o 17?

Voltemos ao começo.

Escolha um número entre 1 e 30.

Talvez você escolha 17.

Talvez, depois de ler este artigo, escolha deliberadamente qualquer outro número apenas para provar que pode contrariar a previsão.

Mas espere.

Nesse caso, você escolheu outro número porque realmente quis...

Ou porque este artigo acabou de influenciar sua decisão?

E se eu tiver provocado você justamente para que evitasse o 17?

Quem escolheu?

Você?

Eu?

Seu passado?

O contexto?

Uma sequência de causas que começou muito antes desta leitura?

Spinoza provavelmente sorriria diante da nossa dificuldade.

Talvez o verdadeiro aprendizado não esteja em descobrir definitivamente se somos livres.

Talvez esteja a perceber que, quanto mais compreendemos as forças que nos fazem escolher, mais próximos chegamos, de alguma forma verdadeira, à liberdade.

Então, amigo leitor, escolha um número entre 1 e 30.

Pode escolher qualquer um.

Você é livre.

Será?

Para refletir

O que você chama de “minhas escolhas” nasceu realmente de você, ou parte delas foi escrita silenciosamente pela família, pelo país onde nasceu, pelas experiências que viveu, pelos medos que acumulou e pelas circunstâncias que o trouxeram até aqui?

Talvez atravessar uma fronteira tenha mudado seu endereço.

A questão de Spinoza é muito mais provocadora:

Você também conseguiu atravessar as fronteiras invisíveis que existem dentro de você?

@marcoalevato

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