Esporte

Jiu-Jitsu: A Conquista Real de Status Verdadeiro Além do Dinheiro

Marco Alevato

Editor

Jiu-Jitsu: o status que o dinheiro não compra

No tatame, o cartão de crédito perde valor. Faixa não se compra, se conquista. E isso muda tudo.

Durante muito tempo, status foi algo fácil de exibir: relógio caro, carro importado, viagens, endereço nobre. Sinais claros de que “você chegou lá”.

O problema é que quase todos esses símbolos têm um atalho em comum: dinheiro.

É justamente por isso que o Jiu-Jitsu vem ganhando espaço silencioso entre empresários, executivos e pessoas bem-sucedidas em todo o mundo.

Não como moda.

Mas como exceção.

Porque ali existe uma regra simples e desconfortável:

Você não pode comprar o seu nível.

Em uma sociedade em que carros, relógios, viagens e até aparências podem ser financiados, alugados ou cuidadosamente exibidos nas redes sociais, algumas conquistas continuam imunes ao cartão de crédito. O Jiu-Jitsu talvez seja um dos melhores exemplos dessa nova definição de prestígio.

Durante décadas, aprendemos a reconhecer os códigos do sucesso.

O carro certo. O relógio certo. O endereço certo. A roupa certa. O restaurante certo. A fotografia no destino certo.

Cada época construiu seus próprios símbolos de status e, por muito tempo, possuir determinados objetos funcionou como uma espécie de cartão de apresentação social.

Eles diziam, sem necessidade de palavras:

“Eu cheguei lá.”

Mas alguma coisa está mudando.

Não necessariamente porque deixamos de gostar de carros, relógios, viagens ou de coisas boas. Provavelmente continuaremos gostando.

A mudança acontece porque grande parte desses símbolos perdeu uma característica fundamental do verdadeiro status: a dificuldade de obtê-los.

Hoje, praticamente tudo pode ser financiado, parcelado, alugado ou simplesmente encenado por alguns minutos para uma fotografia.

É possível parecer rico sem ser rico.

É possível parecer bem-sucedido sem ter alcançado sucesso.

É possível frequentar lugares associados a determinada classe social sem necessariamente pertencer àquela realidade econômica.

As redes sociais transformaram a aparência em um produto.

E quando a aparência pode ser comprada, ela perde parte de sua capacidade de discernimento.

Talvez seja exatamente por isso que estejamos assistindo ao nascimento de uma nova categoria de símbolos sociais.

Aqueles que o dinheiro pode facilitar, mas não consegue comprar.

E o Jiu-Jitsu é um exemplo fascinante.

O Porsche fica no estacionamento

Imagine duas pessoas chegando para treinar.

Uma estaciona um Porsche.

A outra chega de carro comum.

Uma delas dirige uma empresa com centenas de funcionários. A outra trabalha oito horas por dia e precisa organizar cuidadosamente a agenda para conseguir treinar.

Entram no vestiário.

Tiram os sapatos.

Guardam relógios, celulares e chaves.

Vestem praticamente a mesma roupa.

Um kimono.

Quando entram no tatame, acontece algo extraordinariamente raro na sociedade moderna:

quase todos os sinais externos de posição social desaparecem.

Se o empresário milionário for faixa-branca e o funcionário for faixa-marrom, não existe cartão de crédito capaz de inverter essa hierarquia.

Nessa hora, o conhecimento vale mais do que o patrimônio.

O Porsche continua sendo Porsche.

Só que está lá fora.

Existe uma coisa que não está à venda

O dinheiro pode proporcionar excelentes condições para alguém praticar Jiu-Jitsu.

Pode pagar a melhor academia.

Pode contratar aulas particulares.

Pode comprar dezenas de kimonos.

Pode financiar viagens para campeonatos.

Pode pagar fisioterapia, preparação física, alimentação e tudo o que ajuda um atleta a evoluir.

Mas existe uma transação que simplesmente não deveria existir:

comprar legitimamente uma graduação.

Porque a faixa representa algo que nenhuma transferência bancária consegue produzir.

Tempo.

Uma faixa roxa representa anos.

Uma faixa marrom indica mais anos.

Uma faixa preta normalmente representa uma parcela considerável da vida dedicada ao aprendizado.

E não são apenas anos marcados no calendário.

São milhares de horas de treino.

São derrotas.

Lesões.

Frustrações.

Dias ruins.

Dias extraordinários.

São incontáveis vezes sendo finalizadas.

São posições repetidas centenas de vezes até que o corpo comece a compreender aquilo que a mente tentava entender antes.

É conhecimento incorporado.

Literalmente.

O problema do alpinista social

É aqui que surge uma figura interessante da sociedade contemporânea: o alpinista social.

Não estamos falando simplesmente de alguém que deseja crescer economicamente. Ambição, desenvolvimento profissional e busca por uma vida melhor são forças legítimas e, muitas vezes, necessárias.

O alpinismo social é diferente.

É a tentativa de adquirir os símbolos de determinada posição antes de construir aquilo que deveria sustentá-la.

Primeiro compra-se a aparência.

Depois, talvez, construa-se a realidade.

Durante muito tempo isso funcionou relativamente bem.

O objeto comunicava status.

O endereço comunicava status.

O restaurante comunicava status.

A fotografia comunicava status.

Mas há um enorme problema quando esse indivíduo encontra atividades baseadas em competência.

Competência não aceita representação.

Você pode comprar um piano Steinway.

Não pode comprar a capacidade de tocá-lo.

Pode comprar equipamentos profissionais de fotografia.

Não pode comprar o olhar de um fotógrafo desenvolvido ao longo de vinte anos.

Pode comprar os melhores tênis disponíveis.

Não pode comprar uma maratona concluída.

Pode pagar a matrícula em uma academia de Jiu-Jitsu.

Não pode comprar dez anos de tatame.

E talvez seja justamente aí que esteja nascendo uma nova definição de luxo.

O luxo do século XXI pode ser o tempo investido

Existe uma frase frequentemente associada ao universo do luxo:

“Se todo mundo pode ter, deixa de ser exclusivo.”

Durante décadas aplicamos essa lógica aos produtos.

Talvez agora precisemos aplicá-la às experiências e competências.

Quando quase qualquer objeto pode ser financiado, o verdadeiro elemento escasso passa a ser outro.

Tempo.

Disciplina.

Conhecimento.

Constância.

Saúde.

Experiência.

Reputação.

Esses são patrimônios estranhos porque não podem ser simplesmente transferidos de uma pessoa para outra.

Você pode herdar US$ 10 milhões.

Não pode herdar uma faixa-preta.

Pode herdar uma empresa.

Não pode herdar os conhecimentos necessários para administrá-la.

Pode herdar uma biblioteca inteira.

Não se pode herdar o que alguém aprendeu lendo livros.

Talvez este seja um dos paradoxos mais interessantes da nossa época.

Quanto mais coisas conseguimos comprar, maior parece ser o valor daquilo que precisa ser conquistado.

No tatame, o currículo aparece rapidamente

O Jiu-Jitsu possui, ainda, uma característica particularmente incômoda para o ego.

Ele é verificável.

Uma pessoa pode exagerar a própria importância profissional.

Pode aumentar números.

Pode construir cuidadosamente sua imagem nas redes sociais.

Pode escolher fotografias, ângulos, cenários e histórias capazes de transmitir uma determinada impressão.

No tatame, a narrativa dura poucos minutos.

O corpo entrega aquilo que você realmente sabe.

Existe técnica ou não existe.

Existe condicionamento ou não existe.

Existe experiência ou não existe.

E, principalmente, existe uma pequena palavra que coloca empresários, médicos, advogados, trabalhadores, estudantes, homens e mulheres diante da mesma realidade:

tap.

Bater.

Reconhecer que, naquele momento, o outro venceu.

E começar novamente.

Talvez por isso tantos executivos estejam descobrindo o Jiu-Jitsu

Existe algo particularmente interessante na relação entre o Jiu-Jitsu e pessoas profissionalmente bem-sucedidas.

Quanto mais alguém cresce profissionalmente, mais difícil pode se tornar encontrar ambientes em que essa pessoa seja tratada simplesmente como iniciante.

Presidentes possuem assessores.

Empresários possuem funcionários.

Executivos possuem equipes.

Pessoas poderosas frequentemente vivem cercadas por estruturas que reconhecem sua posição.

Então entram em uma academia.

E alguém diz:

“Você é faixa-branca.”

Existe algo extraordinariamente saudável nisso.

Você pode administrar uma companhia durante o dia e, algumas horas depois, precisar perguntar a um jovem de 25 anos como sair de uma posição.

O conhecimento reorganiza a hierarquia.

E a humildade deixa de ser uma frase bonita publicada no Instagram.

Torna-se uma necessidade prática.

A faixa velha pode valer mais do que o relógio novo

Talvez uma das imagens mais interessantes do Jiu-Jitsu seja a de uma faixa completamente desgastada.

Desbotada.

Marcada.

Quase destruída pelo uso.

Para quem não conhece o esporte, provavelmente não vale nada.

Financeiramente, realmente vale muito pouco.

Mas para quem entende o que está vendo, aquela faixa carrega milhares de horas.

E então chegamos a uma inversão fascinante.

Um relógio perfeitamente novo pode custar US$ 30 mil.

Uma faixa velha talvez custe US$ 20.

Mas apenas uma delas conta uma história que não pode ser comprada pronta.

Isso não diminui o relógio.

Apenas revela que existem diferentes formas de valor.

Status sem etiqueta de preço

Talvez estejamos entrando em uma época na qual precisaremos novamente separar duas palavras que durante muito tempo confundimos:

riqueza e valor.

Dinheiro continua sendo importante.

Proporciona segurança, liberdade, conforto e oportunidades.

Não existe virtude automática na pobreza, assim como não existe defeito automático na riqueza.

A questão é outra.

Dinheiro consegue comprar coisas extraordinárias.

Mas existem territórios da experiência humana nos quais ele continua a ter poderes limitados.

Você não compra amizade verdadeira.

Não compra respeito genuíno.

Não compra experiência.

Não compra disciplina acumulada.

Não compra conhecimento instantâneo.

Não compra vinte anos de dedicação.

E não compra aquilo que talvez seja uma das mercadorias mais raras do nosso tempo:

credibilidade construída.

A nova elite talvez seja formada por quem sabe fazer

Durante muito tempo perguntamos:

“O que essa pessoa possui?”

Talvez a pergunta mais interessante para os próximos anos seja:

“O que essa pessoa sabe fazer?”

Construir.

Criar.

Ensinar.

Liderar.

Lutar.

Cozinhar.

Escrever.

Tocar.

Resolver.

Cuidar.

Persistir.

Conhecimento e competência possuem uma elegância particular.

Não precisam necessariamente ser anunciados.

Aparecem quando necessários.

O Jiu-Jitsu apenas torna essa realidade mais visível, porque há uma faixa amarrada na cintura que conta parte da história.

Mas a mensagem vai além do esporte.

O símbolo de status que o alpinista social não consegue comprar

Talvez seja exatamente essa a razão pela qual atividades como Jiu-Jitsu estejam adquirindo um significado social diferente.

Não porque tenham se tornado esportes de ricos.

Essa seria uma interpretação superficial.

Mas porque representam algo cada vez mais raro:

uma conquista resistente à falsificação.

O alpinista social pode comprar o kimono.

Pode estacionar o carro mais caro na frente da academia.

Pode aparecer nas fotografias.

Pode frequentar os seminários.

Pode conhecer atletas famosos.

Pode publicar que “vive o lifestyle”.

Mas existe um detalhe inconveniente.

Na próxima aula, terá de pisar novamente no tatame.

E ali não existe filtro.

Talvez esse seja o verdadeiro símbolo de status contemporâneo.

Não é aquilo que você consegue mostrar.

Mas aquilo que ninguém consegue tirar de você.

Porque foi construído.

Treino após treino.

Erro após erro.

Ano após ano.

Faixa após faixa.

Em uma sociedade onde quase tudo ganhou uma etiqueta de preço, talvez as coisas mais valiosas sejam justamente aquelas nas quais alguém ainda precisa olhar para você e dizer:

Isso não está à venda. Você terá que conquistar.

@marcoalevato

@facebrasil

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