O Caibalion: Descubra os Sete Princípios Universais que Regem os Mistérios da Vida
Marco Alevato
Editor

CAIBALION: AS SETE LEIS QUE TENTAM EXPLICAR OS PADRÕES INVISÍVEIS DA NOSSA VIDA
Um livro publicado há mais de um século propõe que pensamentos, ciclos, opostos, escolhas e consequências obedecem a princípios universais. Filosofia, misticismo ou simplesmente uma extraordinária maneira de observar a existência?
Existem livros que terminamos de ler e depois voltamos a colocar na estante.
Existem outros que continuam nos acompanhando.
O Caibalion pertence à segunda categoria.
Publicado originalmente em 1908 e atribuído aos misteriosos “Três Iniciados”, o livro apresenta uma interpretação moderna de ideias associadas à tradição hermética e organiza sua filosofia em sete grandes princípios: Mentalismo, Correspondência, Vibração, Polaridade, Ritmo, Causa e Efeito e Gênero.
Mais de um século depois, a obra continua despertando curiosidade justamente por tentar responder perguntas que permanecem conosco.
Por que determinados padrões parecem se repetir em nossa vida?
Por que algumas pessoas enfrentam circunstâncias semelhantes e obtêm resultados completamente diferentes?
Quanto daquilo que chamamos de destino é consequência das nossas próprias escolhas?
Até que ponto conseguimos mudar nossa realidade ao mudar primeiro nossa maneira de pensar?
O Caibalion oferece respostas próprias a essas questões.
Não precisamos aceitá-las como verdades absolutas.
Talvez o maior valor do livro esteja justamente em outra coisa: obrigar o leitor a observar a própria existência.
E quando transportamos essa reflexão para a experiência do imigrante, os sete princípios ganham uma dimensão particularmente interessante.
Porque poucas experiências humanas testam tanto nossas crenças, nossos padrões e nossa capacidade de transformação quanto começar de novo em outro país.
O PRINCÍPIO DO MENTALISMO
O primeiro princípio apresentado pelo Caibalion afirma que a realidade possui natureza essencialmente mental.
Interpretado de maneira prática, ele nos leva a uma questão poderosa:
quanto da nossa realidade começa na maneira como pensamos?
Isso não significa imaginar que basta desejar algo para que ele aconteça.
Pensamento positivo não substitui trabalho.
Otimismo não paga contas.
Visualização não substitui conhecimento.
E nenhuma filosofia elimina circunstâncias econômicas, sociais ou pessoais reais.
Mas há algo difícil de negar: nossas ações são profundamente influenciadas pela maneira como interpretamos o mundo.
Antes de abrir uma empresa, alguém precisa acreditar que é possível empreender.
Antes de aprender outro idioma, precisa aceitar a possibilidade de não dominá-lo inicialmente.
Antes de reconstruir uma carreira, precisa suportar a desconfortável sensação de voltar a ser iniciante.
O imigrante vive isso diariamente.
Muitas vezes, a primeira fronteira que atravessamos não está no aeroporto.
Está dentro da nossa própria cabeça.
O PRINCÍPIO DA CORRESPONDÊNCIA
Uma das ideias mais conhecidas associadas ao hermetismo é a relação entre diferentes níveis da realidade, frequentemente resumida pela ideia de que há correspondências entre o que está acima e o que está abaixo, entre o que está dentro e o que está fora.
Para a vida cotidiana, podemos transformar isso em uma pergunta:
Quanto do mundo que construímos ao nosso redor reflete aquilo que carregamos dentro de nós?
Esse talvez seja um dos princípios mais interessantes para quem imigrou.
Porque existe uma fantasia silenciosa presente em muitos recomeços:
“Quando eu mudar de lugar, tudo será diferente.”
Então mudamos de cidade.
Mudamos de país.
Mudamos de trabalho.
Mudamos de relacionamento.
Mudamos de empresa.
Mudamos de círculo social.
Mas, algum tempo depois, determinados problemas reaparecem.
Com personagens diferentes.
Em lugares diferentes.
Sob circunstâncias diferentes.
Isso acontece porque podemos mudar de endereço sem necessariamente alterar nossos padrões.
Quem administrava mal o dinheiro no Brasil pode continuar administrando mal o dinheiro nos Estados Unidos.
Quem tinha dificuldade em ouvir pode continuar sem ouvir.
Quem sempre procura culpados continuará encontrando culpados em qualquer continente.
Quem acredita que todas as regras têm uma exceção conveniente descobrirá rapidamente que mudar de país não modifica automaticamente essa maneira de pensar.
Às vezes atravessamos milhares de quilômetros apenas para reencontrar a nós mesmos.
O PRINCÍPIO DA VIBRAÇÃO
O Caibalion apresenta a ideia de que tudo está em movimento.
Em uma leitura contemporânea e não literal, podemos pensar sobre aquilo que nos influencia constantemente.
As pessoas com quem convivemos.
As conversas que repetimos.
As informações que consumimos.
Os ambientes que frequentamos.
Os conteúdos que chegam diariamente ao nosso telefone.
Tudo isso interfere na nossa percepção.
Imagine alguém que passa todos os dias ouvindo que os Estados Unidos acabaram, que nenhuma empresa prospera, que todos os clientes são ruins, que ninguém consegue crescer e que qualquer tentativa terminará em fracasso.
Agora imagine alguém cercado por pessoas que estudam, trabalham, treinam, criam empresas, reconhecem dificuldades, mas procuram soluções.
Nenhum desses ambientes garante sucesso ou fracasso.
Mas certamente ajudam a construir maneiras diferentes de enxergar possibilidades.
Escolher ambientes também é escolher influências.
O PRINCÍPIO DA POLARIDADE
Calor e frio.
Luz e escuridão.
Coragem e medo.
Sucesso e fracasso.
O princípio da Polaridade sugere que muitos aparentes opostos podem ser compreendidos como extremos de uma mesma escala.
Essa ideia é fascinante quando aplicada às nossas experiências.
Talvez sucesso e fracasso não sejam necessariamente destinos opostos.
Talvez sejam posições diferentes no mesmo processo.
Um negócio que fracassou pode gerar o conhecimento necessário para construir outro.
Uma oportunidade perdida pode modificar uma decisão futura.
Um emprego abaixo da qualificação profissional pode ser uma etapa temporária de adaptação.
Uma rejeição pode redirecionar uma carreira.
Isso não significa romantizar sofrimento.
Fracassar dói.
Perder dinheiro dói.
Começar novamente dói.
Mas transformar uma derrota em identidade talvez seja ainda pior.
Existe enorme diferença entre dizer:
“Meu projeto fracassou.”
e dizer:
“Eu sou um fracasso.”
A primeira frase descreve um acontecimento.
A segunda transforma um acontecimento em identidade.
O PRINCÍPIO DO RITMO
Talvez esta seja uma das ideias mais facilmente reconhecíveis na experiência humana.
A vida acontece em ciclos.
Existem períodos de crescimento e de retração.
Entusiasmo e cansaço.
Prosperidade e dificuldade.
Expansão e reorganização.
O empresário conhece isso.
O atleta conhece isso.
O mercado financeiro conhece isso.
E o imigrante conhece profundamente.
Nos primeiros meses ou anos de uma nova vida, frequentemente há uma enorme alternância emocional.
Um dia tudo parece possível.
No outro, surge a pergunta:
“O que estou fazendo aqui?”
Depois alguma coisa funciona.
Uma oportunidade aparece.
A vida começa a encontrar seu ritmo.
Até surgir outro problema.
O erro talvez esteja em imaginar que a felicidade significa permanecer permanentemente no ponto mais alto do ciclo.
Nenhum gráfico econômico funciona assim.
Nenhuma empresa funciona assim.
Nenhuma carreira funciona assim.
E provavelmente nenhuma vida funciona assim.
Maturidade talvez seja aprender que um período difícil não significa, necessariamente, que tudo terminou.
Da mesma maneira, um período extraordinário não significa que possamos abandonar a disciplina, a prudência e a preparação.
Tudo muda.
Inclusive aquilo que hoje parece permanente.
O PRINCÍPIO DE CAUSA E EFEITO
Entre os sete princípios apresentados pelo Caibalion, talvez este seja o mais pragmático.
A ideia central é que os acontecimentos possuem causas e produzem consequências.
Quando aplicado à vida cotidiana, isso nos obriga a abandonar uma das posições mais confortáveis que existem:
a de espectador da própria história.
É muito fácil observar resultados.
Mais difícil é investigar suas causas.
Uma empresa fecha.
Um relacionamento termina.
Uma carreira não evolui.
Uma dívida cresce.
Uma oportunidade desaparece.
Podemos atribuir tudo ao azar.
E certamente existem acontecimentos fora do nosso controle.
Mas existe uma pergunta desconfortável e extremamente útil:
Qual foi a minha participação na construção desse resultado?
Talvez nenhuma filosofia seja necessária para reconhecer o poder dessa pergunta.
As escolhas de hoje podem parecer pequenas.
Estudar inglês durante uma hora.
Economizar algum dinheiro.
Treinar.
Ler.
Telefonar para um cliente.
Cumprir uma promessa.
Respeitar uma lei.
Chegar no horário.
Aprender uma nova habilidade.
Pedir desculpas.
Dizer não.
Cada decisão isoladamente parece insignificante.
Mas a vida raramente é construída por uma única decisão gigantesca.
Ela normalmente é construída pelo acúmulo de milhares de pequenas decisões.
O PRINCÍPIO DO GÊNERO
Este é provavelmente o princípio que mais exige contextualização para o leitor contemporâneo.
No Caibalion, o gênero não deve ser entendido simplesmente como sexo biológico.
O conceito é apresentado simbolicamente como forças complementares presentes nos processos de criação e manifestação.
Podemos utilizar essa ideia sem precisar interpretá-la literalmente.
Criar exige forças diferentes.
Imaginação e execução.
Intuição e análise.
Coragem e prudência.
Expansão e controle.
Sonho e disciplina.
Talvez muitos projetos fracassem justamente porque possuem apenas metade dessa equação.
Existem pessoas extraordinárias para sonhar que nunca executam.
E existem excelentes executores que nunca permitem a si mesmos imaginar algo diferente.
Construir exige equilíbrio.
MUDAR DE PAÍS NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE MUDAR DE VIDA
É aqui que o Caibalion talvez encontre sua reflexão mais interessante para a comunidade imigrante.
Podemos atravessar um oceano e continuar carregando as mesmas crenças.
Podemos obter outro passaporte e conservar os mesmos medos.
Podemos abrir uma empresa americana utilizando exatamente os mesmos métodos que já não funcionavam.
Podemos mudar de casa, carro, profissão e círculo social sem modificar aquilo que realmente determina grande parte das nossas decisões.
Por isso, recomeçar exige muito mais do que apenas mudar de lugar.
Exige revisão.
O que precisa permanecer?
O que precisa desaparecer?
O que funcionava no lugar de onde viemos, mas não funciona aqui?
Quais crenças ainda fazem sentido?
Quais hábitos pertencem a uma versão nossa que já deveria ter ficado para trás?
Essas perguntas são difíceis.
Mas talvez sejam justamente as perguntas que transformam uma mudança de país em uma verdadeira transformação pessoal.
FILOSOFIA, MISTICISMO OU AUTOCONHECIMENTO?
É importante fazer uma distinção.
O Caibalion não deve ser tratado como um manual científico sobre o funcionamento do Universo.
Também há um debate histórico sobre sua relação com as antigas tradições herméticas. A obra foi publicada no início do século XX e carrega influências intelectuais daquele período, especialmente correntes ligadas ao chamado New Thought.
Isso, entretanto, não elimina seu valor filosófico.
Livros não precisam conter todas as respostas para fazer perguntas extraordinárias.
E talvez seja justamente aí que esteja a permanência do Caibalion.
Mais de cem anos depois, continuamos tentando compreender os ciclos.
Continuamos tentando compreender escolhas.
Continuamos tentando entender por que repetimos determinados comportamentos.
Continuamos procurando maneiras de transformar nossa realidade.
E continuamos tentando descobrir quanto daquilo que acontece conosco se deve às circunstâncias e quanto se deve às nossas próprias decisões.
TALVEZ O UNIVERSO NÃO SEJA A PRINCIPAL QUESTÃO
Depois de conhecer os sete princípios, existe a tentação de procurar sinais deles em tudo.
Nos negócios.
Nos relacionamentos.
Na economia.
Na natureza.
No comportamento das pessoas.
Talvez estejam lá.
Talvez não.
Mas existe uma possibilidade ainda mais interessante.
Talvez o maior valor dessas ideias não esteja em explicar o Universo.
Talvez esteja em nos ensinar a observar nossa própria vida.
Porque não podemos controlar todas as circunstâncias.
Não podemos controlar outras pessoas.
Não podemos controlar mercados.
Não podemos impedir todas as perdas.
Não podemos determinar todos os acontecimentos.
Mas podemos compreender melhor nossos padrões.
Podemos escolher ambientes.
Podemos modificar hábitos.
Podemos aprender com consequências.
Podemos respeitar ciclos.
Podemos transformar fracassos em conhecimento.
E podemos decidir aquilo que faremos quando a próxima circunstância aparecer.
Para quem imigrou, talvez exista uma lição particularmente poderosa nisso tudo:
mudar de país é atravessar uma fronteira. Mudar de vida é atravessar a nós mesmos.
E essa segunda viagem pode ser infinitamente mais longa.
O Caibalion talvez não consiga explicar todos os mistérios do Universo.
Mas, depois de mais de um século, continua fazendo algo que poucos livros conseguem fazer:
nos obriga a pensar.
E talvez essa seja a pergunta que vale levar conosco depois da última página:
E se essas sete leis não servirem para explicar o Universo, mas servirem para entendermos um pouco melhor a nós mesmos?
Biblioteca Facebrasil | Leitura da Semana
Livro: O Caibalion (The Kybalion)
Autoria original: “Os Três Iniciados”
Publicação: 1908
Tema: Hermetismo, filosofia, comportamento e autoconhecimento
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