Tecnologia

O robô será a nova televisão dos lares?

Marco Alevato

Editor

A revolução silenciosa que começa na lavanderia e pode terminar com um humanoide andando pela nossa sala

Durante décadas, quando imaginávamos a casa do futuro, pensávamos em carros voadores, paredes cobertas de tela e robôs servindo o jantar. O carro voador continua demorando. Mas o robô doméstico parece estar chegando bem antes dele.

E talvez a transformação mais importante nem esteja acontecendo diante dos nossos olhos.

Está acontecendo na lavanderia.

Máquinas de lavar calculam automaticamente os ciclos de acordo com a carga. Secadoras com sensores, vapor, controle de temperatura e programas específicos reduzem drasticamente os amassados e entregam determinadas peças praticamente prontas para guardar ou vestir. Aspiradores já percorrem a casa sozinhos, identificam obstáculos, retornam às suas bases, esvaziam seus reservatórios e continuam trabalhando.

Geladeiras monitoram alimentos. Fornos recebem comandos pelo celular. Sistemas controlam a iluminação, a temperatura, a segurança e o consumo de energia.

Separadamente, tudo isso parece apenas uma evolução dos eletrodomésticos.

Quando conectamos os pontos, porém, aparece algo muito maior:

Estamos começando a terceirizar o trabalho doméstico para as máquinas.

E a próxima máquina pode andar pela casa.

Da Smart Home para a Robot Home

A primeira grande transformação tecnológica doméstica ocorreu quando os aparelhos começaram a ganhar inteligência.

A segunda acontece agora: eles estão começando a ganhar autonomia.

Essa diferença é enorme.

Uma máquina inteligente responde ao comando.

Uma máquina autônoma identifica o que precisa ser feito e executa a tarefa.

O aspirador robô foi, provavelmente, o primeiro exemplo dessa mudança a ser aceito em grande escala. Não precisamos mais acompanhar o aparelho pela casa. Ele simplesmente trabalha.

Agora a indústria tenta levar esse mesmo conceito para tarefas muito mais complexas.

E é exatamente aí que entram os robôs domésticos.

Eles já estão chegando

Na CES 2026, realizada em Las Vegas, a LG apresentou o CLOiD, um robô doméstico equipado com inteligência artificial, braços articulados, mãos com cinco dedos, câmeras e sensores.

A proposta da empresa tem até nome: “Zero Labor Home”, ou casa com trabalho doméstico próximo de zero.

Em uma das demonstrações apresentadas pela fabricante, o robô interage com eletrodomésticos, cuida da lavanderia e dobra e organiza as roupas após a secagem. A ideia é que robôs, inteligência artificial e eletrodomésticos deixem de funcionar como equipamentos isolados e passem a formar um único ecossistema doméstico.

Mas a LG está longe de estar sozinha.

A 1X Technologies desenvolveu o NEO, um humanoide projetado especificamente para ambientes residenciais. A empresa afirma que ele poderá realizar tarefas como organizar objetos, guardar louça, buscar itens, abrir portas, apagar luzes e trabalhar com roupas.

E aqui aparece um detalhe que transforma ficção científica em mercado consumidor: o produto já foi colocado em pré-venda.

A empresa anunciou entregas nos Estados Unidos a partir de 2026, com uma versão de acesso antecipado por US$ 20 mil e um modelo de assinatura por US$ 499 mensais. Segundo a própria 1X, a capacidade inicial de produção de 10 mil unidades foi esgotada em apenas cinco dias.

Outra concorrente é a Figure.

Sua Figure 03 foi redesenhada pensando justamente no ambiente doméstico. Segundo a fabricante, o humanoide está sendo desenvolvido para realizar tarefas como lavar e organizar roupas, limpar ambientes e cuidar da louça. O modelo utiliza inteligência artificial para compreender comandos e adaptar suas ações aos ambientes imprevisíveis de uma residência.

A corrida pelo robô doméstico começou.

Mas precisamos realmente de um robô com duas pernas?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes.

Nossas casas foram construídas para seres humanos.

As maçanetas estão à altura das mãos. Armários foram projetados para braços. Escadas foram feitas para pernas. Mesas, pias, interruptores, geladeiras, máquinas de lavar e praticamente todos os objetos domésticos obedecem às proporções do corpo humano.

Isso explica por que tantas empresas apostam no formato humanoide.

Em vez de reconstruir a casa para receber máquinas, podemos construir uma máquina capaz de utilizar a casa existente.

Mas existe outra corrente tecnológica igualmente interessante.

Talvez não tenhamos um robô fazendo tudo.

Talvez tenhamos dezenas de pequenos robôs e aparelhos especializados trabalhando em conjunto.

O aspirador cuida do chão.

A máquina lava.

A secadora seca.

O forno cozinha.

A geladeira administra alimentos.

O sistema de climatização controla a temperatura.

E uma inteligência artificial central coordena todos eles.

Nesse cenário, o verdadeiro robô doméstico talvez não seja aquele que vemos andando pela sala.

Pode ser a própria casa.

O bem mais precioso que a tecnologia está tentando vender

Durante décadas, eletrodomésticos foram vendidos com base em potência, capacidade, tamanho e design.

A nova geração vende outra coisa:

tempo.

Se uma família gasta algumas horas por semana lavando, secando, dobrando roupas, limpando pisos, organizando objetos, preparando refeições e executando pequenas tarefas domésticas, qualquer tecnologia capaz de recuperar parte desse tempo passa a ter um valor diferente.

Não estamos comprando apenas uma máquina.

Estamos comprando algumas horas da nossa própria vida de volta.

Talvez essa seja a grande promessa da automação residencial.

Existe também um preço invisível: privacidade

Há, entretanto, uma discussão que precisa acompanhar essa revolução.

Para trabalhar em casa, um robô precisa enxergar.

Precisa reconhecer objetos.

Precisa compreender comandos.

Provavelmente precisará aprender hábitos.

Isso significa câmeras, microfones, sensores e inteligência artificial circulando pelo espaço mais privado que existe: nossa residência.

Quem terá acesso a essas informações?

Onde serão armazenadas?

O robô saberá quando estamos em casa, o que compramos, o que comemos, quem nos visita e como organizamos nossa rotina?

A indústria precisará responder a essas perguntas com a mesma velocidade com que desenvolve braços, pernas e inteligência artificial.

Por que a confiança será tão importante quanto a tecnologia.

O robô será a nova televisão?

Talvez essa comparação pareça exagerada hoje.

Mas imagine uma família em 1950 olhando para uma televisão e ouvindo que, algumas décadas depois, praticamente todas as residências teriam uma.

O mesmo aconteceu com computadores pessoais.

Depois com internet.

Depois smartphones.

Tecnologias começam caras, limitadas e aparentemente desnecessárias. Em seguida, melhoram, tornam-se mais baratas e encontram aplicações que ninguém imaginava inicialmente.

O primeiro robô doméstico de US$ 20 mil certamente não será um produto para todas as famílias.

Mas o primeiro televisor também não foi.

O primeiro computador pessoal também não.

O primeiro telefone celular também não.

A pergunta relevante talvez não seja se haverá um robô em nossas casas.

A pergunta é: quanto tempo levará até considerarmos estranho entrar em uma casa que não tenha algum tipo de robô doméstico?

Da televisão que entretinha para o robô que trabalha

Existe uma diferença fascinante entre essas duas revoluções.

A televisão entrou nas casas para ocupar nosso tempo.

O robô promete entrar para devolvê-lo.

Se conseguir cumprir essa promessa, poderá transformar profundamente a rotina familiar.

Imagine chegar em casa e encontrar o chão limpo, as roupas lavadas e organizadas, a temperatura ajustada, as compras recebidas e parte do jantar já preparada.

Não porque alguém passou o dia realizando essas tarefas.

Mas porque a casa trabalhou enquanto seus moradores estavam fora.

Esse futuro ainda enfrenta enormes obstáculos. Preço, segurança, confiabilidade, manutenção, privacidade e capacidade real de realizar tarefas complexas precisam evoluir muito.

Uma análise recente sobre os robôs apresentados em 2026 lembra que as residências são ambientes extremamente difíceis para humanoides: possuem escadas, crianças, animais, objetos fora do lugar e situações imprevisíveis. Por isso, a solução pode acabar sendo uma combinação de robôs, eletrodomésticos especializados e uma inteligência artificial central.

Mesmo assim, algo importante já aconteceu.

O robô doméstico deixou de ser apenas um personagem de filme para se tornar um produto, um protótipo, um investimento e uma estratégia comercial.

Talvez nossos netos nunca entendam por que gastávamos parte do domingo passando roupa, aspirando a casa ou dobrando toalhas.

Da mesma forma que uma criança hoje dificilmente entende por que alguém precisava levantar do sofá para trocar o canal da televisão.

A tecnologia doméstica sempre teve uma missão silenciosa: eliminar pequenas obrigações da vida cotidiana.

A inteligência artificial e a robótica estão levando essa missão a outro nível.

E talvez, em algum momento não muito distante, ao comprar uma casa nova alguém pergunte ao corretor:

“Tem geladeira? Tem ar-condicionado? Tem robô?”

E ninguém achará a pergunta estranha.

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