Quadrinhos ganham fãs no Brasil, mas ainda encontram pouco espaço nas salas de aula

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As diversas teorias sobre o que é ou não literatura rendem discussões acaloradas no Brasil.

Observemos o caso dos quadrinhos.

Fonte de divertimento, de um aprendizado mais acessível e, muitas vezes, umas das primeiras leituras feitas pelas crianças, capaz de despertar o gosto pela leitura, as tirinhas têm um espaço reduzido em alguns ambientes no país, como na sala de aula.

A história das HQs brasileiras não é recente, dispondo de uma importância cultural igual a de outros gêneros literários.

Há 146 anos, em 30 de janeiro de 1869, o italiano radicado no Brasil Ângelo Agostini apresentou as primeiras tirinhas nacionais: “As Aventuras de Nhô Quim”. Lançada pela revista Vida Fluminense, a história narrava a vida de um homem do interior do país. A partir de então, o mercado nacional de HQs vem crescendo.

Atualmente os leitores encontram uma série de assuntos nas famosas tirinhas, desde aquelas que trazem as aventuras de super-heróis, como X-Men, de Stan Lee e Jack Kirby; passando pelas que abordam questões sociais por meio do olhar das crianças, tais como Mafalda, de Quino, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; por aquelas que nos apresentam uma realidade cultural mais distante, como Habibi, de Craig Thompson; e chegando, obviamente, às que falam sobre nosso próprio país e o universo infantil nacional, tendo como nossa maior representante A Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.

Ainda assim, há uma relutância em aceitar o potencial educacional das HQs no Brasil, mesmo que o material leve o leitor a desenvolver a competência da leitura não somente do texto verbal, mas também do imagético.

Em sua obra “Cultura Letrada”, que propõe a discussão do que é ou não literatura, a livre-docente em História da Literatura pela Universidade Estadual de Campinas Márcia Abreu aponta uma teoria sobre o que é atualmente considerado relevante para os bancos escolares nacionais: “Sabe também que as instâncias de legitimação selecionam o que deve ser considerado Literatura, definindo, por conseguinte, o que deve ser apresentado nas escolas como a produção nacional e ocidental, o que deve ser estudado, o que pode ser exigido em exames de seleção”.

Percebe-se que, ao pré-selecionar os gêneros literários estudados na escola, os quadrinhos perdem espaço para os romances clássicos ao longo do tempo, que são mais cobrados em exames de vestibular ou concursos públicos.

Consequentemente, esse comportamento gera uma desvalorização, em longo prazo, das tirinhas por uma parcela da população adulta, que se vê direcionada somente ao consumo de romances.

Sendo assim, o papel das HQs no cenário nacional precisa ser revisto, uma vez que elas podem desenvolver, logo nos primeiros anos de vida da criança, a paixão pela leitura, proporcionando, ainda, o contato com outras culturas e a habilidade de ler não só o texto escrito, mas também as imagens tão presentes no mundo atual.

Denise Miranda é estudante de Letras e autora do blog As Lentes de Miranda (aslentesdemiranda.blogspot.com.br)

Revista Facebrasil – Edição 51 – 2015
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